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CONTO
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O comandante

(*) Beth Vilasboas

Vangloriando-se pela escolha daquele ponto estratégico ali na Vila Yolanda, de onde tem uma vista ampla do céu, todos os dias, ao entardecer, ele assume o comando, confortavelmente sentado na plataforma frontal do estabelecimento. Quase indiferente à cerveja que espuma, serve-se vagarosamente. O líquido esquenta e choca neste prolongado ritual de bebericagem. Apesar da aparência tranquila e descompromissada, ele está de sobreaviso, atento aos movimentos celestes. Determinara uma rota, que seria obedecida, ele sabia, mas fazia questão de inspecionar e recepcionar sua esquadrilha, pessoalmente.

Antes que a primeira estrela se mostre, surgem, detrás do edifício cinzento, as luzes esperadas e o som da primeira aeronave que vem pedir sua aprovação, para pousar no aeroporto internacional. Ele confere as horas, não admite atraso superior a trinta minutos, depois ajeitando os óculos embaçados, aperta os olhos e observa o avião, em busca de algum indício. Achando tudo em perfeita ordem, ergue o braço e sinaliza com o polegar direito, dando o ok para o piloto, que lhe sorri, inclinando a cabeça, respeitosamente.

Há um intervalo de aproximadamente três horas entre uma chegada e outra, período em que às cervejas acrescentam-se os uísques e seu olhar se estende aos circunstantes em demorada observação do comportamento humano, tão previsível e, ao mesmo tempo, tão complicado. O rebolado da mulher que atravessa a rua o distrai. Ele se lembra das cadeiras soltas da Sônia Braga, ou melhor de Dona Flor, do Jorge Amado. Instigado por Vadinho, busca ao redor, uma deixa pra vadiagem. O telefone toca. É Daniela. Está com saudades, quer vê-lo. Implora que ele vá a São Paulo ou a deixe vir para Foz do Iguaçu, para ficar junto dele. Não, não!. Ele não a quer. Por favor! Que chatice essa pegação no pé! Se soubesse que ela viraria esse chiclete, não lhe teria dado conversa durante aquele evento. Mas, mulher bonita, ótima modelo, desfilou bem, ele resolveu comer... Deu no que deu! Desligou nervoso. Com azedume exigiu uma cerveja estupidamente gelada e, cruzou os braços enfiando as mãos sob as axilas, fungando sua contrariedade.

- Algum problema? - quis saber a dona da birosca.

- Não! Tudo certo! - disse em tom seco. Ela passou o pano encardido na mesa, espreitando-o.

- Essas mulheres... Vocês, mulheres! Vocês são muito complicadas! Bah!

- Que que foi dessa vez? - a proprietária o desafiava com a mãos nos quadris. Ele balançou a cabeça como a dizer que deixasse pra lá e mordiscou a unha do minguinho esquerdo. Porém, quando ela fez menção de afastar-se, ele se apressou:

- Quem me ligou agorinha? Vamos ver se adivinha – era ele quem a desafiava agora.

- Sei lá! A dona Chica? - ironizou.

- Que Chica, guria? Daniela! Daniela Cicarelli! - alterou-se - Daniela me ligou. Agora, pô! Você ouviu. Me enchendo o saco... quer me ver, quer ficar comigo... não consegue me esquecer. É isso! Uma chateação!

- Hum-rum! - fez ela e se virou para olhar o horizonte. Estão no horário? - disse apontando o céu com o queixo.

- Sim, senhora! E não estejam pra ver! - enfatizou orgulhoso. Tirou os óculos para ver o marcador do aparelho ultrapassado e se encheu de alegre expectativa. Que ela não saísse do lugar, iria ver, já-já, o maior deles iria apontar logo ali, bem onde estava aquela nuvem gorda...

- Ah-ha! Ei-lo!

- É, pois é! - assentiu a mulher. - E daí, tá tudo em cima?

- Calma! Vamos checar: luzes, ok. Ronco? Ouça! Tá... Tá. Vai. Está bem. Autorizado! - o braço com o polegar para cima se levanta liberando o último avião. Passa da meia-noite. Ele vira o copo, num prazeroso gole e suspira, satisfeito. Levanta-se, coloca o celular no bolso, ajeita o boné seboso sobre os cabelos ralos, apanha a bengala. Sai em silêncio. Titubeia na escada.

Apreensiva, a mulher lhe atira um “até amanhã?” Ele não responde. Mas, quando atinge a calçada, tira o boné, joga a bengala, pegando-a no ar e com os braços abertos:

- Não garanto nada! - Rindo, vai embora.


(*) Beth Vilasboas é servidora pública estadual em Foz do Iguaçu, Pr.

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