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e leia outro texto de Nathalie Husson, publicado no Tirando de Letra

TRADUÇÃO
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O centenário de Claude Lévy-Strauss

(*) Nathalie Husson

Observação: Quando Lévy-Strauss completou 100 anos, em 2008,
Nathalie escreveu este comentário. Ao mesmo tempo, traduziu,
junto com Ildo Carbonera, um artigo do pensador francês, que também
publicamos nesta página.


Um índio dentro do século

Pai titular do Estruturalismo, tanto filósofo quanto etnólogo, o autor de Tristes Trópicos vai  fazer 100 anos. Ele é o autor de uma obra considerável, de alcance universal.
Nascido em 1908, C.L.S. é o fundador da teoria estruturalista francesa. Formado em filosofia, ele se torna etnólogo no Brasil no anos 30. Eleito em 1959 na cadeira de Antropologia Social no Colégio de França,leciona até 1982. Titular de uma cadeira na Academia Francesa de Letras, ele é o autor de Tristes Trópicos (55), O homem nu (71) e Olhar, escutar, Ler (93).

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LIÇÕES DE UM ETNÓLOGO:
“A dificuldade crescente de viver juntos...”
 
(*) Por Claude Lévi-Strauss
(**) Tradução: Nathalie Husson e Ildo Carbonera


Artigo publicado na revista francesa  Le nouvel Observateur, 9 de junho 2005.

Em maio de 2005, o grande etnólogo recebeu o prestigiado Prêmio Internacional de Catalunha. Para ele, foi uma oportunidade para poder meditar sobre o homem e o mundo.

Por ter nascido nos primeiros anos do século xx, vivendo até seu final, fui um dos testemunhos, e porque, muitas vezes, alguns me perguntam a respeito dele. Seria inconveniente tornar-me um juiz dos eventos trágicos que o marcaram. Isto  interessa aos que vivenciaram tais crueldades, porque eu me sentia como  que protegido desses acasos sucessivos, por mais que minha carreira também fosse prejudicada.

A etnologia (ciência ou arte, ou pode ser as duas coisas?) tem suas raízes em parte numa época antiga e em parte numa outra recente. Quando os homens da Idade- Média e do Renascimento descobriram novamente a Antiguidade Greco-Romana e quando os jesuítas fizeram do Greco e do Latim a base do seu ensino, não era uma primeira forma de praticar etnologia? Era o reconhecimento que nenhuma civilização não podia desprezar quando ela dispunha de outras civilizações como termo comparativo. O Renascimento tem na literatura antiga o meio de pôr a sua própria cultura numa perspectiva, confrontando as concepções contemporâneas com as de outros tempos e outros lugares.

A única diferença entre cultura clássica e cultura etnográfica está nas dimensões do mundo aprendido. No início do Renascimento, o universo humano está delimitado pela bacia mediterrânea. O resto, só se imaginava a sua existência. Nos séculos XVIII e XIX, o humanismo se alarga com o progresso da exploração geográfica. A China e a Índia se inserem dentro deste quadro. Nossa terminologia universitária que nomeia o seu estudo sob a apelação de filologia não-clássica, confessa, por sua inaptidão a criar um termo original, que se trata do mesmo movimento humanista estendido a um novo território. Interessada nas últimas civilizações ainda menosprezadas- as sociedades ditas primitivas-, a etnologia atravessa a terceira etapa do humanismo.

O métodos de conhecimento da etnologia são, ao mesmo tempo, mais exteriores e mais interiores que os antigos. Nas sociedades de difícil acesso, fechada, ela é obrigada se pôr muito por fora (antropologia física, pré- historia, tecnologia) e também muito por dentro, pela identificação do etnólogo com o grupo com que ele divide a existência e a extrema importância que ele deve tomar para dar contar nas suas infinitas sutilezas da vida física dos indígenas.

Sempre aquém e além do humanismo tradicional, a etnologia o transborda em todos os sentidos. Seu campo abraça a totalidade do planeta habitado, enquanto o seu método concilia processos que dependem de todas as formas de saber: ciências humanas e biológicas.

Mas o nascimento da etnologia procede também de considerações mais tardias e de uma outra ordem.  Durante o século XVIII, o Ocidente adquire a convicção de que a extensão progressiva da sua civilização era inelutável, e que ela ameaçava a existência de milhares de sociedades mais humildes e mais frágeis, cujas línguas, crenças, artes e instituições eram, contudo, testemunhos insubstituíveis da riqueza e da diversidade das criações humanas. Se um dia se esperava saber o que era o homem, importava juntar, enquanto havia ainda tempo, todas essas realizações culturais que não deviam nada ao Ocidente. Tarefa ainda mais urgente para essas sociedades sem escrita, pois não produziam documentos escritos, na sua maioria, nem monumentos.

Ora, antes que a tarefa esteja suficientemente avançada, tudo isso já estava pronto para desaparecer ou, pelo menos, para mudar profundamente. Os pequenos povos chamados de indígenos recebem hoje os cuidados da ONU. Convidados nas reuniões internacionais, eles tomam consciência uns dos outros. Os índios americanos, os Maoris da Nova Zelandia, os Arborígenas da Austrália descobrem destinos comparáveis e possuam interesses comuns.  Uma consciência coletiva emerge além dos particularismos que davam a cada cultura a sua especificidade. Ao mesmo tempo, cada uma se impregna dos métodos, das técnicas e dos valores do Ocidente. Sem dúvida, essa uniformização não será jamais completa. Outras diferenças surgirão dia após dia, dando uma nova matéria para a pesquisa etnológica. Mas numa humanidade nova e solidária, essas diferenças serão de uma outra natureza: não mais externas à civilização ocidental, mas internas às formas mestiçadas, estendidas ao planeta inteiro.

A população mundial contava no meu nascimento com 1, 5 b. de habitantes. Quando comecei a trabalhar, nos anos 30, o número subiu para 2 b. Hoje, ele é de 6 b. e pode atingir, dentro de alguns decênios, 9 b. Segundo os demógrafos, esse último número seria um  pico e que a população conhecerá um declínio, tão rápido, que, para alguns, dentro de alguns séculos, uma ameaça pesará sobre a sobrevivência da nossa espécie. De qualquer jeito, ela terá prejudicada a diversidade não somente cultural mas também biológica, deixando desaparecer quantidade de espécies animais e vegetais.

Sem dúvida, o homem é o responsável por esses desaparecimentos, mas sofrerá a ação de seus efeitos. Pode ser que todos os grandes dramas contemporâneos encontram sua origem, direta ou indiretamente, na dificuldade de viver junto do outro, inconscientemente ressentido por uma humanidade pressionada pela explosão demográfica,como os vermes da farinha que ficam se envenenando à distância dentro do saco que os contém, bem antes que o alimento começa a faltar  - começaria a se odiar por que uma presciência  secreta a avisa que ela se torna muito numerosa para que cada um de  seus membros possa livremente se beneficiar dos bens fundamentais  que são o espaço livre, a água pura, o ar não poluído.

Assim, a única chance dada à humanidade seria a de reconhecer que, tornado a sua própria vítima,  essa condição a coloca no mesmo pantamar de igualdade com todas as outras formas de vida que ela passou a destruir e continua destruindo.

Mas se o homem achar que, prioritariamente, possui direitos por tratar-se de um ser vivo , isso implica em que esses direitos, reconhecidos pela humanidade enquanto espécie, encontram os seus limites naturais nos direitos das outras espécies. Os direitos da humanidade acabam no momento em que o seu exercício coloca em perigo a existência das outras espécies.

O direito à vida e ao livre desenvolvimento das espécies vivas ainda representadas sobre a terra só pode ser dito imprescritível, pela simples razão deKarina diz:
é que teoricamente daí vc se salva e vive eternamente que a extinção de qualquer espécie cava um vazio, irreparável, a nossa escala, dentro do sistema da criação.

Somente essa maneira de considerar o homem poderia acolher a aprovação de todas as civilizações. A nossa, primeiro, pois a concepção que acabei de colocar foi da dos jurisconsultos romanos, influenciados pela filosofia estóica, que definiam a lei natural como o conjunto das relações globais estabelecidas pela natureza entre todos os seres vivos animados, para a sua conservação comum; as das grandes civilizações do Oriente e Extremo-Oriente, inspiradas pelo hinduísmo e budismo; enfim, a dos povos ditos subdesenvolvidos, e mesmo os mais humildes deles, as sociedades sem escrita.

Através dos sábios costumes, que não dá para considerar como simples superstições, elas limitam o consumo pelo homem das outras espécies vivas e impõem o respeito moral, associado a regras muito restritas para assegurar a sua conservação. Por mais diferentes que sejam essas últimas sociedades, umas em relação às outras, elas atuam coletivamente para fazer do homem uma parte integradora e não um “mestre da criação”.
   
Tal é a lição que a etnologia aprendeu com essas sociedades.

 

(*) Claude Lévy-Strauss, pensador francês, morreu em outubro de 2009
.
(**) Nathalie Husson
é francesa, empresária em Foz do Iguaçu, Pr.
Ildo Carbonera é professor universitário em Foz do Iguaçu, Pr.

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