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CONTO
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Será o Benedito?

(*) Fábia Tonin

 

O aviso de retirada de correspondência chegara no final da tarde e naquela  noite, Ana Maria não pregara os olhos. Parecia que o mostrador do relógio de cabeceira levava uma eternidade para acusar o minuto seguinte.

Nem conseguia se lembrar da última vez que recebera alguma remessa ou algo que o valha.

Vivia só naquela minúscula cidade onde nada acontecia e como já passasse dos trinta, era inevitável que aquele pedacinho de papel avisando que alguém tinha uma mensagem para ela, funcionasse como um passaporte para o sonho. Lia e relia seu nome no campo do destinatário como que para se certificar de que se tratava dela, mesmo.

Uma madrugada estranha aquela que misturava um tanto de ansiedade prazerosa e impaciência.

Em vão, tentava fazer com  que o sono viesse e quase sem perceber se flagrava divagando, tentando imaginar quem poderia ser o remetente.

Na verdade, talvez nem quisesse mesmo dormir, por isso prolongava aquela sensação de espera por algo que julgava excitante.  Num instante buscava  o relógio, constatando que nem um quarto de hora havia se passado. 

Às vezes, vinham uns lampejos de auto crítica e se sentia meio boba, logo um canto de riso surgia,denunciando que estava era comemorando aquilo tudo.

Solitária que era, desenvolvera  uma infinidade de artifícios que a distraiam e ajudavam a arrastar seus dias aborrecidos, assim, passava das duas horas quando tentava adivinhar quantas frestas eram reproduzidas na parede pela sombra da veneziana.

Sempre sonhara que algum acontecimento inesperado mudasse totalmente o rumo de sua insossa existência, algo como o que lia nos romances açucarados que avidamente devorava nas noites de sábado. Seus dias de folga se resumiam aos livros e às compras da semana  onde trocava quase sempre as mesmas frases com a dona do mercado. Tudo tão banal...

Agora talvez estivesse a poucas horas de algo novo, emocionante, arrebatador. Ah, afinal a vida podia  sim, ser boa como nos folhetins e com esse prenúncio de dias melhores se pôs a contar mentalmente os segundos, de modo a coincidir sua contagem com a virada do minuto.
Lentamente transcorria o passar do tempo entre idas à cozinha para um copo de água, espiadas na janela, tentativas de fechar palavras cruzadas, televisão, voltas à cama.

Sabia que uma noite em claro teria um preço, afinal a esperava um dia duro de trabalho no escritório de advocacia do Dr. Alcides, onde acumulava um sem numero de funções, mas não conseguia  sequer cochilar.

Lá pelas quatro horas se sentia ainda mais ansiosa, e  pior, exausta, mas a essa altura já não aventava possibilidades negativas para aquela manhã tão aguardada.

Seu habeas corpus veio com o cantar do primeiro galo e de um salto, pulou da cama, agora também impulsionada pela descarga de adrenalina que só fazia crescer.  Permaneceu bem uns cinco minutos de frente para o guarda- roupas com as portas abertas, tentando escolher algo apropriado para aquele dia. Sentia vontade de caprichar, queria estar bonita. Após inúmeras tentativas, finalmente de decidiu por um vestido de estampa  de flores miúdas e azuis que combinou com sandálias novas  de salto não muito altos e de tiras finas que deixavam ver  o pé magro e bonito de unhas esmaltadas em cor clara.

A agência dos Correios só abriria às nove horas, então tomou um banho bem demorado como há muito não fazia e vestiu se.

Para o café da manha apenas uma xícara de café puro. Nada para comer. Era sempre assim quando estava nervosa.

Pelo caminho, muitos pensamentos lhe atravessavam a cabeça sonhadora.

Embora tivesse chegado bem antes do horário de abertura, uma pequena aglomeração de pessoas já se encontrava no lado de fora. Após angustiantes minutos,o portão foi aberto e todos se apressaram afim de retirar logo uma senha.

Só havia um atendente, aquilo iria longe, sobretudo porque a maioria era de idosos, de modo que obviamente teriam preferência no atendimento.

Procurou sentar-se o mais distante possível das pessoas, não queria correr o risco de alguém puxar conversa pra falar do clima, dos preços, das últimas tragédias. Não, ela não estava pra isso.

Como aumentasse a cada instante o número de pessoas, não era mais possível um isolamento. Um homem recém chegado sentou-se ao seu lado. Mesmo sem olhar diretamente, de imediato reconheceu aquele perfil. Tratava-se do  Benedito, um rapaz que trabalhava no único banco da cidade. Sempre  nutrira uma paixão que nunca dera em nada. Até abriu uma conta que nem podia movimentar, só para vê- lo. Seria ele? Sempre a tratara muito bem, simpático, sorridente. Sabia-se que continuava solteiro e não tinha notícias de que fosse compromissado com alguém. Isso seria como ganhar na loteria. Já fazia tempo que não o via, pois sem conseguir sustento para manter a conta ativa, teve que encerra-la. Cumprimentou-a com um leve aceno de cabeça  e foi só. Talvez fosse tímido, como ela mesma era. Não seria perfeito?

_D 47! Senha D47!!

De tão absorta não percebera que o painel já se iluminara, chamando-a.
 A sensação era a  de que todos à volta, percebiam sua ansiedade. Trôpega, dirigiu-se ao balcão.

_ Sinto muito, a senhorita terá que aguardar pois já chamei o número seguinte ao seu.

Imaginando que o Benedito pudesse estar observando-a agora que ela estava lá, em pé, sem poder vê-lo, agradeceu ao céus ter se posto bem vestida e endireitou a coluna tentando parecer mais elegante.

Já não se agüentava quando chegou sua vez. Os segundos que se seguiram enquanto o funcionário checava, pareciam horas. Por fim, ele se pôs a procurar o que lhe haviam endereçado.Localizando, lhe lançou um sorrisinho que ela devolveu e nem percebeu que o deixou lá, estampado na cara até se dar conta e fixar o olhar naquele envelope. Tinha ímpetos de arranca- lo das mãos dele.

A letra, redondinha, desenhada, quase infantil, lhe causou um certo desconforto que se acentuou quando foi informada de que deveria pagar o selo mas isso foi logo suprimido pela emoção que sentia.

Pagou- o  e agora, tinha nas mãos o que tanto esperara, mas cadê coragem para abri- lo?

Saiu rapidamente e sentou se numa pracinha ali bem perto. Não havia muita gente, queria fazer aquilo com calma, como quem degusta um vinho precioso. Era como se borboletas passeassem dentro dela causando aquele frio na barriga que era agradável e aflitivo.

Os olhos procuraram de imediato o remetente. Olhava e não enxergava, juntava as letras e elas não eram decodificadas numa palavra, num nome. Nesse momento surge uma figura  do nada, a Luzia. Embora pachorrenta, sempre aparecia assim, sem ninguém esperar . Era um tipo detestável, dessas que ninguém quer encontrar. Uma mulher rechonchuda e rosada,adorava saber da vida alheia e não raro tecia comentários maldosos a respeito de tudo e de todos.A vontade era saltar para atrás de algum arbusto, mas sabia que não teria sucesso, Luzia jamais perdia de vista um alvo. Foi assim que resignada a saudou e teve que ouvir dela o quanto parecia pálida e  magrinha e ainda anotar o nome e endereço de um medico ma - ra - vi – lho - so. Suspirou aliviada quando se juntou à elas a Cilene, vizinha da Luzia, dando conta de um furdunço na porta da quitanda e lá se foram as duas, esbaforidas  afim de não perder nada do ocorrido.

O envelope a essa altura já estava retorcido entre os dedos. Desamassou-o e pôde agora lê-lo, de uma só vez.

Algo como um soco no estômago acometeu-a, faltou lhe o ar...  Zuleika & Detinha Armarinho e Confecções ??  Recobrada e já sentindo a raiva tomar conta, rasgou o papel e leu o conteúdo:

- “Nossos clientes são especiais para nós e não poderíamos deixar de cumprimentá-la pela proximidade de seu aniversário. Parabéns, muitas felicidades!
Aproveite, faça-nos uma visita e confira nossas ofertas.”

Atônita, permaneceu ali ate esmagar o que restava do sonho.

- Isso só pode ser coisa da Detinha! Desde aquele curso de marketing à distância ela se julgava um gênio da publicidade e num rasgo de criatividade tascara um “Parabéns , muitas felicidades?”  E além de tudo a fizera pagar por aquilo? Que cara de pau!

Aquela espelunca era uma das poucas possibilidades de compra em épocas de Natal quando enviava presentes aos sobrinhos.

Espumando de indignação, lembrou-se que estava atrasadíssima para o trabalho e nem poderia sair para o almoço por conta disso. Certamente, Dr. Alcides teria uma lista infindável de tarefas para ela como era de costume e nem mesmo tinha ânimo para se levantar do banco.

A frustração era tamanha que cumpriu a ordem do dia mecanicamente. Não teve fome nem sede, não sentiu calor nem frio, nem nada. Só pensava em ir à tal loja. Seria capaz de fazer a Detinha engolir aquele papel todo amassado.

Quase no final do expediente, o bendito do Dr. Alcides pediu um processo que ela demorou a encontrar. Depois nem arrumou suas coisas, deixando a mesa em desordem.

Substituiu as sandálias novas por um outro par, surrado mas confortável. Tinha sempre  no armário do escritório, uma muda de roupa, uma sombrinha, coisas assim para o caso de alguma eventualidade.

No seu passo desanimado, encontrou  o armarinho com as portas fechadas.

Naquela noite,  Ana Maria não dormiu...


(*) Fábia Tonin é cirurgiã-dentista em São Paulo.

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