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OPINIÃO
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A destruição da dignidade humana

(*) Cláudio Reis

O fato ocorrido recentemente na Universidade Bandeirante (Uniban), felizmente já é de conhecimento de todos os brasileiros, sem falar da repercussão que teve no exterior. O caso choca por vários motivos: pela agressividade de determinados estudantes da Universidade, pela humilhação sofrida pela garota, pela má condução nos debates midiáticos, etc.

No entanto, depois da expulsão da vítima da vida acadêmica, o que mais chama a atenção é como um ato tão bárbaro como esse pôde ser institucionalizado. Não é possível aceitar uma atitude como essas sem que exista uma forte reação da sociedade civil. Afinal, quem garante que essa institucionalização da barbárie não vai se alastrar pelas demais instituições da sociedade?

Que existe um forte e difundido movimento fascista na vida social não é novidade, mas a sua legalização não é algo tão fácil de verificação. O movimento estudantil, o movimento feminista, os trabalhadores e suas organizações, os mais variados setores ligados à educação brasileira não podem deixar isso acontecer sem que haja uma reação a altura.

Índios queimados, mulheres espancadas por se parecerem prostitutas, negros humilhados em supermercados, só para citar os mais conhecidos e emblemáticos, mostram que esse episódio não é um caso isolado. Não é um simples conflito entre alunos vaidosos, nem tem vínculo com a forma como a garota estava vestida.

Isso é, na verdade, uma expressão apenas da generalizada conduta fascista que aos poucos está tomando conta da vida social deste país. A decisão dos responsáveis desta Universidade, em expulsar a garota, dá uma certa noção sobre quem está no poder em determinadas instituições.

Obviamente que a vida social não está ausente de conflitos dos mais diversos tipos, neste sentido é de se esperar posturas como estas. Entretanto, de modo algum isso justifica qualquer tipo de indiferença ou menosprezo pelo fato. Quando decidiram expulsar a vítima com base num Regime institucional, eles simplesmente deram legitimidade para cada xingamento, ameaça de estupro e cusparada, sofridos pela garota.

Com base numa norma interna, simplesmente disseram: “vocês agiram corretamente”. Essa decisão é sim uma afronta a dignidade humana. É sim um ataque frontal a todos que lutam pela emancipação da humanidade.

Quem vive o cotidiano universitário sabe que nele não existe somente respeito ao conhecimento, liberdade de expressão, elementos educacionais importantes para a construção de uma realidade social digna e justa. Em seus espaços é possível encontrar também a intolerância e as mais variadas formas de discriminação e segregação.

O espaço universitário está longe de ser sinônimo de “elevação cultural”, como é comumente difundido. E esse caso, de maneira trágica, revela parte dessa realidade. Com esse episódio, a rotina da vida acadêmica quase que se obriga a ser desnaturalizada. É preciso refletir com a atenção os tipos de relações produzidas em seu interior.

Não é possível que, em instituições tão importantes como essas, condutas tão perversas como as vistas na Uniban, não sejam percebidas e combatidas. De certo modo, o caso da garota do vestido rosa colocou a vida universitária no interior de uma mesma realidade bárbara, vivida na sociedade em geral.

Em outras palavras, o seu cotidiano não está acima das mazelas humanas. Seus membros podem sim expressar ações tão violentas quanto qualquer outro que dela não faz parte. O castelo foi atingindo e não adiante tentar criar novas muralhas. É preciso que a Universidade se redefina, objetivando superar essa visão de exterioridade à própria vida social. Só assim, a produção de conhecimento que lhe é singular terá condições de contribuir para as soluções dos diversos problemas enfrentados pela sociedade.


(*) Claudio Reis é doutor em Ciências Sociais em Foz do Iguaçu, Pr. Texto publicado originalmente no site Megafone

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