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CONTO
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59 SEGUNDOS

(*) José Rezende Jr.

 

Não entendo uma palavra do que ele diz por causa do Raul Seixas que toca muito alto no CD player ou por causa dos vidros fechados do carro ou porque falamos mesmo línguas diferentes ele é pobre e eu segundo o ponto de vista dele e os indicadores sociais do terceiro mundo sou rico mas nemé preciso falar a língua dos desesperados porque nada mais
eloqüente e universal que um revólver apontado pra sua cabeça mesmo com um vidro elétrico entre você e a bala e se isso é assim em qualquer lugar do mundo imagina então neste país fodido nesta cidade de merda nesta escuridão filha da puta em que fui me meter mesmo a polícia avisando toda hora que é suicídio que é preciso evitar lugares ermos mas quem é que raciocina pela ótica do aparelho de segurança do estado quando a única coisa que importa é um belo par de coxas mas eu podia ao menos ter botado vidro à prova de bala mas pensando bem por que eu botaria vidro à prova de bala que é quase o preço do meu carro se nunca pensei em morrer assim com uma bala na cabeça.

49 segundos

na próxima encarnação a prioridade é vidro à prova de bala não saia de casa sem seu vidro à prova de bala você nunca sabe quando vai precisar de um eu e o meu pessimismo nem na hora da morte consigo pensar positivo sejamos otimistas tenho grandes chances de sobreviver segundo as estatísticas só um em cada dez assaltos acaba em morte não sei se as estatísticas são relativas ao Rio ou a Estocolmo e esse único desgraçado que morre entre os dez assaltados é porque tentou reagir ou então porque o assaltante tava muito doidão eu não vou reagir e sei lá se o cara fumou ou cheirou evito olhar pra ele aliás evito olhar pra qualquer lugar mantenho os olhos fixos no relógio digital do painel do carro 23:11 mas minha
excelente visão periférica capta pelo canto do olho esquerdo um revólver atrás do vidro e pelo canto do olho direito o par de coxas.

39 segundos

não sei se me conforto ou me desespero de vez por saber que não vou morrer sozinho vou morrer acompanhado da moça do par de coxas mas é bem provável que eu morra sozinho sim porque um par de coxas desses não é todo dia se o cara for esperto estoura meus miolos depois estupra a menina e aí resolve se mata ou não mata deve ser bom brincar de Deus ter amplos poderes pra decidir “este aqui com cara de doutor morre aquela gostosona ali merece viver porque um par de coxas desses não é todo dia” engraçado eu só lembrar dela como um par de coxas mas tem até certa lógica a única coisa que vejo com o lado direito da minha excelente visão periférica que a terra há de comer a partir de amanhã à noite depois do velório é o par de coxas de resto a gente mal se conhece lembro-me vagamente do rosto mas o que me chamou a atenção no bar foi a minissaia pensei pô eu dava minha alma ao Diabo em troca da bênção de penetrar nessas coxas e bem feito acabei de penetrar e já não consigo lembrar se foi bom acho que depois do gozo ficou igual a sempre mas o Diabo não quer nem saber já tá aí do outro lado do vidro veio correndo cobrar a dívida só que pra levar a alma o filho da puta precisa primeiro descartar meu corpo e é aí que eu me fodo e não sei mais se a mão que empunha o revólver é de Deus ou do Diabo deve ser de Deus porque eu pequei Senhor e mereço Vossa ira.

29 segundos

maldito sentimento de culpa que não nos abandona nem agora na hora da nossa morte ou da minha morte considerando que a única morte líquida e certa aqui é a minha já não tento entender o que o cara fala e o mais estranho é o silêncio ele já não berra coisas naquela língua incompreensível e a moça também não abre a boca ela não fala nada ela não grita ela
não dá escândalo nem imagino o que se passa pela cabeça dela desisto da visão periférica portanto nem a visão do paraíso das coxas dela nem a do inferno que me chama do outro lado do vidro só tenho olhos pro relógio digital do painel

23:11 mas como 23:11 ainda 23:11 o tempo parou

19 segundos

ou então o tempo continua a correr mas o relógio digital não marca a passagem dos segundos então este tempo todo não durou nem um minuto eu li não sei onde já li tanta coisa na minha vida li que na hora da morte a vida toda do moribundo passa pela cabeça dele num minuto como se fosse filme ah não definitivamente tudo o que eu não quero é rever o filme da minha vida produção chinfrim uma porcaria roteiro medíocre elenco sofrível a começar pelo protagonista maldita baixa auto-estima que não me abandona nem agora na hora da minha morte muito bem Deus fazemos um acordo o Senhor me mata eu morro mas cancela a exibição do filme da minha vida é o último pedido do condenado ou o penúltimo sei lá o que não falta agora é último pedido a ser feito tantas coisas incompletas amanhã era dia de regar as plantas o IPVA vence segunda-feira que bom pelo menos do IPVA eu tô livre não me despedi dos meus filhos as ex-mulheres que se fodam todo mundo que vai morrer mesmo não sabendo que vai morrer tem uma espécie de iluminação sei lá e telefona na véspera pralgum ente querido como quem não quer nada e diz “olha aconteça o que acontecer não esqueça que eu te amo muito etc e tal” e bate as botas no dia seguinte pelo menos é o que dizem as reportagens que reconstituem a morte de algum famoso ainda bem que não sou famoso posso morrer anônimo ainda bem o caralho não sejamos cínicos pelo menos uma vez na vida ou pelo menos uma vez na morte tudo o que eu queria era ser famoso nunca tive saco nem talvez talento pra escrever porra nenhuma só poema vagabundo em boteco idem mas sempre me via bem lá adiante na noite de autógrafos meu livro imaginário desaparecendo das estantes da livraria sucesso de crítica.


9 segundos

a única coisa boa do anonimato é a morte anônima nenhum jornal especulando as circunstâncias do homicídio a polícia nem aí que nada muito pelo contrário todo cara que morre trepando dentro do carro a imprensa faz o maior carnaval a polícia é obrigada a sair da letargia e ir no embalo exames do IML “a bala rompeu o osso tal e foi se alojar não sei em que parte do cérebro” “vestígios de esperma” esperma porra nenhuma o termo técnico é sêmen “vestígios de sêmen estamos providenciando o DNA pode ter havido conjunção carnal
talvez crime passional o marido dela não está descartado ela era solteira pra nós todo mundo é suspeito trata-se de um profissional a moça está em estado de choque incapaz de descrever o criminoso a moça foi barbaramente violentada antes de morrer claro que já temos um suspeito mas pra não atrapalhar as investigações”

8

e se eu abrisse o vidro elétrico e dissesse calmamente tudo bem pode levar o carro meu rolex da feira do paraguai meu talão de cheque se o senhor quiser eu assino todas as folhas
em branco pro senhor não ter trabalho juro que não mando sustar tudo o que eu peço é deixar a gente ir embora com vida o senhor entendeu a minha colocação eu disse a gente ir
embora com vida veja que não excluo a possibilidade desde que não mate nenhum dos dois bem o senhor sabe um par de coxas desses não é todo dia

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e se eu abrisse o vidro elétrico e dissesse aos prantos leva tudo leva inclusive essa vagabunda aí do lado eu nem sei o nome dela mas um par de coxas desses não é todo dia leva tudo menos a minha vida tenho dois filhos domingo é dia de visita eu prometi aos meus dois filhos vamos ao McDonald´s concordo com o senhor eu podia ter pensado num programa mais saudável e politicamente correto zoológico cinema tobogã do parque da cidade porra mas o senhor sabe como são as crianças de hoje em dia o senhor é que tá certo nunca levou seus filhos ao McDonald´s esse negócio de fast-food a globalização o senhor sabe começa pelo estômago o McDonald´s é a ponta de lança deste modelo neoliberal que enriquece os ricos e empobrece os pobres o senhor sabe o senhor é mais uma vítima do desemprego gerado pelo sistema econômico desumano que aí está o senhor podia estar aí dignamente coletando nosso lixo ou desentupindo esgotos pra que nossos excrementos corram livres mas não em vez disso aí está o senhor se humilhando com um revólver apontado pra minha cabeça

melhor pensar em outra estratégia essa dos filhos não vai colar mesmo sendo verdade lembro quando eu era pequeno meu pai botou no fusca aquele ímã Não Corra Papai com o retratinho meu de um lado e o da minha irmã do outro ia cair superbem agora um ímã daquele com as fotos dos meus filhos se o cara for coração-mole não vai matar o pai de duas
crianças tão lindas por que não fabricam mais aqueles ímãs Não Corra Papai deve ser porque os painéis dos carros hoje são todos de plástico ah bons tempos dos automóveis com painel de metal e o ímã Não Corra Papai hoje é painel de plástico e radar eletrônico e não corra papai porque se o senhor ultrapassar o limite de velocidade da via papai o Detran fotografa o senhor e manda a multa pelo correio fora os pontos na carteira de habilitação “que papo é esse véi que filhos esperando em casa porra nenhuma tu aí na parada comendo a mina no meio do cerrado véi tu merece é um pipoco no meio das idéias tá ligado” o bandido ia dizer e o pior é que ele teria razão não dá nem pra dizer a ele sou pai de família esta senhora aqui ao lado é a mãe dos meus filhos ele não vai acreditar já tô beirando os 50 malho todo dia me cuido mas não dá pra esconder que os 40 ficaram bem lá pra trás e a moça do par de coxas ainda não chegou nos 20 maldita previsível e inescapável crise da meia-idade

5

estranha sensação quanto mais perto o fim mais os segundos custam a passar o relógio digital do painel insiste 23:11 sempre 23:11 será que este já é o filme da minha vida então cadê a cena de abertura minha mãe me dando o peito meu pai tendo que trabalhar dobrado fazendo serão era assim que se dizia naquela época meu pai tendo que fazer serão porque
agora somos mais uma boca cadê minha infância infeliz minha adolescência desatinada cadê meu primeiro beijo o primeiro peito sem ser o da minha mãe cadê aqueles projetos de vida por falar nisso cadê a vida que tava aqui e nem deu tempo de viver direito o pior é ir embora sem nem saber o quê que eu vim fazer aqui afinal

4

o CD continua tocando a mesma faixa é sinal que o tempo passa mesmo mais devagar ou então a música é muito comprida mas já tá quase no fim “eu que não me sento no trono de um apartamento” Deus pode nem existir mas tem um senso de humor do caralho enquanto o Raul canta “boca escancarada cheia de dentes esperando a moooooorte chegaaaaaar” eu estou exatamente esperando a morte e lembro o Raul começou cantando “eu devia estar contente porque tenho um emprego sou um dito cidadão respeitável” e éisso mesmo eu tenho emprego sou cidadão respeitável mas não estou contente nem lembro a última vez que estive contente quando o cara chegou batendo no vidro com o cano do revólver eu já era infeliz há muito tempo mas nem por isso escolhi morrer assim com um tiro na cabeça se eu pelo menos tivesse uma arma mas não tenho nunca tive arma na cintura carrego esse celular surdo-mudo nunca gostei de celular comprei porque cansei de subir escada correndo ouvindo o telefone tocando dentro do apartamento vazio eu largando as compras no chão a garrafa de uísque quebrando com o baque eu querendo abrir a porta nunca acerto a chave na primeira eu entrando no apartamento vazio agarrando o telefone tirando do gancho tarde demais desligaram deve ser engano não sei quem era do outro lado da linha será que existe
vida do outro lado da linha aí comprei secretária eletrônica mas já veio com defeito só pode ser defeito de fabricação nenhuma mensagem gravada em tanto tempo agora é o celular que não toca porque também veio estragado ou então porque ninguém telefona pra mim e eu não sei por que insisto em juntar tanta tralha inútil e se eu destravo a porta do carro aí o cara faz logo o que tem que fazer e acaba com essa agonia talvez ele mande a gente descer aquele teatro todo “se abrir a boca morre véi se olhar pra minha cara morreu meu irmão tá ligado se respirar num respira nunca mais aí tu fica a pé a mina vai comigo porque um par de coxas desses aê onde é que acende o farol dessa porra” ou então o cara teve um dia ruim não tá a fim de papo mete logo uma bala na minha cabeça e leva ou não leva a menina mata ou não mata come ou não come já não tô nem aí meus miolos espalhados pelo painel de plástico respingando no par de coxas da moça a gente morre acaba tudo ou será que tem outra encarnação infeliz do outro lado da linha da vida e nesse outro lado continua a mesma merda sei lá não demora vou ver o que tem lá do outro lado pena que não dá pra escrever um livro de auto-ajuda contando como é lá do outro lado só contratando um médium mesmo assim eu penso na noite de autógrafos minha obra-prima póstuma de estréia desaparecendo das gôndolas dos supermercados sucesso de público não dá mais pra enrolar tenho que escolher baixar o vidro elétrico ou destravar a porta ou arrancar com o carro mas a polícia manda evitar movimentos bruscos pro cara não ficar puto ou assustado e puxar o gatilho mas como eu vou saber o que o cara considera movimento brusco os conceitos variam de indivíduo pra indivíduo ele já deve ter perdido a paciência se bem que o relógio digital do painel de plástico

ainda 23:11 sempre 23:11 então não faz tanto tempo assim nem um minuto passado desde que ele chegou batendo no vidro ainda não exibiram o filme da minha vida meu último pedido foi atendido obrigado Senhor fico te devendo esta Senhor valeu mesmo Senhor eu agora escuto a Nona de Beethoven será que a professora de catecismo tava certa eu cheguei no céu os anjos dão as boas-vindas tocando a Nona de Beethoven porra nenhuma agora me lembro é o celular em vez de apitar a porra do celular toca a Nona de Beethoven até que enfim essa porcaria resolveu funcionar até que enfim alguém liga pra mim ignoro pela última vez o manual de sobrevivência do aparelho de segurança do estado faço movimento brusco levo a mão à cintura pra sacar o celular é quando o relógio digital do painel do carro pula pra 23:12 e não dá tempo nem de dizer alô a bala estilhaça o vidro eu devia ter botado vidro à prova de bala mas por que botaria vidro à prova de bala que é quase o preço do meu carro se nunca pensei em morrer com uma bala na cabeça e eu vejo a fumaça no cano do revólver
o cheiro de pólvora a trajetória da bala vindo vindo vindo aí ela rompe não sei que osso e vai se alojar não sei em que parte do meu cérebro e pra falar a verdade não ligo a mínima isso não é mais problema meu os caras do IML que se virem com o laudo cadavérico deve ser pra isso que pagamos tanto imposto.


(*) José Rezende Jr. é jornalista e escritor no Rio de Janeiro. O conto acima foi extraído do livro "A mulher-gorila e outros demônios", 2005, Editora Rocinante. Edição esgotada, o livro pode ser lido na Internet , clicando aqui.

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