CONTO ___________________________________________________
A mão de Enrique Morán
(*) Walmor Marcelino
Ao fazer a décima parada, Morán movimentou bem os dois braços e as mãos.
O cansaço e o frio entorpeciam.
Àquela hora morta não é seguro andar com embrulhos pelas ruas. As roupas gastas de operário chamavam atenção das rondas noturnas.
Os pobres são suspeitos.
O último tirão fora de mais de trezentos metros e aquela aflição de logo chegar em casa exigira demais do braço esquerdo. O tendão do cotovelo ainda refletia o esforço, com espasmos.
Muito pior do que o suspeito pelo traje é o embrulho pesado, incômodo, que obriga alguém a paradas de espaço a espaço.
Morán levou a mão direita ã lapela do paletó, puxando-a contra o peito gelado: o indicador e o médio contra o polegar eram tenazes vivas; não serviam como a mão com que a gente se acostuma. Os outros dois dedos, meio recurvados e sem controle, apenas faziam massa, volume de apoio.
Decidido a tocar mais depressa, Enrique Morán agarrou volume com as duas mãos contra o peito e caminhou rapidamente. A marcha se fazia arrastada e difícil.
Abandonando a rua asfaltada, à sensação de alívio, não poda esquecer que não estava seguro. Mesmo que estivesse a salvo da ameaça policial, os olhos observavam atentos a formas mais escuras dos dois lados da rua, na procura de um indício qualquer de assaltantes.
O bairro fervia de tipos capazes de dar um pontaço ou uma porretada por quaisquer 100 cruzeiros.
A porta abriu devagar, mas a mulher perguntou: “Enrique...?”. E logo voltou a dormir, com o “eu” tão baixo e surdo que respondera. E ele se inquietou se era mesmo possível reconhecer.
Morán foi ao escaninho sobre o fogão. Apalpou o saleiro e tomou os fósforos, tirando uma chama que tremeu com a mão e caiu no fogão, não sem antes sapecar-lhe os dedos. Não sabia usar bem a mão esquerda, e a direita, entorpecida pelo frio e imobilidade, já não era de seu domínio.
Empurrou a cafeteira para o fogo.
Depois esfregou rapidamente os dedos e as juntas à procura do sangue fugitivo. Em seguida desatou o barbante, abrindo o embrulho.
Em meio à roupa de trabalho, o martelo e o esquadro, o fio-de-prumo e os pequenos pacotes de comida, retirou algumas folhas de papel. Desceu os olhos para as folhas do jornal mimeografado, em busca dos títulos. Ali estava um resumo do que acontecia de mais importante, do que os jornais da rua não falavam; do que deveria ser feito hoje, amanhã, por cinco anos quem sabe. Ali estava alguma coisa que alimentava muitas pessoas: Era uma conversa que percorria o mundo.
Morán passou as costas das mãos pelos olhos. Por ora apenas os títulos; amanhã, cada palavra e seu sentido.
Já não era só o cansaço que amortecia os olhos; eles se umedeciam. Retomava contato com os companheiros após um ano; mais retornava à luta.
***
Enrique Morán, o galego. O pai, um espanhol calheiro. Enrique era claro em pequeno, “galego”, mas crestara no sol e no trabalho; era galego mais de apelido. Confundia-se com os alemães, polacos, italianos; era igual a todos os operários. O que lhe faltava no ofício de calheiro e encanador o pai dera no entendimento político. Bom, firme, porém meio passado em alto, agora que as situações mudavam. Quando trabalhou na grande fábrica, numa seção à parte, já levara a compreensão dos mundos contrários. Tinha noção exata da guerra, a guerra feroz que a trégua e as palavras escondiam.
Depois já não bastava entender que existiam dois mundos. Ou se criava um mundo à parte para eles, ou tomava-se o mundo inteiro. Morán foi encontrando respostas; a primeira estava no sindicato, onde se fazia reuniões, discutia-se muito e a pelegada levava para fora, falando como deputados.
Não era o que estava esperando. Ele continuava não sendo ninguém; só mais um a quem pediam que fizesse coisas, que ouvisse explicações, que dissesse sim. Morán era agressivo para perguntar; altivo para se chegar e procurar saber.
Morán teve o batismo do trabalho, de reuniões, de comícios, de greves. Teve o batismo de espancamentos, e prisão, quando não cabia mais se atirar contra muitos e armados, ele sozinho.
E ganhou a segunda metade da decepção: como lutar, se, de repente, eles, que eram a maioria, ficavam sozinhos, ofendidos, esbofeteados, espancados? Isolados, até que aprendessem a disciplina do cárcere e que alguns confessassem seu erro e pedissem clemência para a policia e os patrões.
Olhou para o lado e viu Barbinha – era quase um menino em seus 20 anos -, mas parecia sereno e mesmo à vontade, apesar do rosto inchado de pancadas. Ele lhe falava ao ouvido: Estar sempre à frente. Ouviu e calou; Depois pôs-se novamente a ouvir o que o rapaz recitava como uma lição. E Morán teve uma intuição política: seria essa gente que seu pai odiava, como os vanguardistas acima de proletários e massas; aquele “sorriso histórico” do messianismo social. Pior, o inimigo do proletariado?
Na certa aquele rapaz não faria essas coisas. Ou nada sabia desses acontecidos. Assaltara bancos, reunira dinheiro, entregara a alguns chefes de doutrina para montar aparelhos, para comprar armas, para entregar em confiança a algum, para reunir, comprar, gastar, corromper-se e diluir-se no vazio da ausência de entendimento das cosias mais especiais? Eles mesmos discutiam, ali, na cela, essas coisas, com o sentimento do heroísmo, com um fraseado forte e vazio no futuro.
***
Não podia falar; corria o olho são à volta do quarto, sem saber onde estava. Tomou comando primeiro do corpo, depois das pernas e braços; eram grandes massas dominadas a custo; até que se apercebeu; dominava as massas de pernas e braços, mexia o corpo dolorido. Foi com inquietação que localizou os pontos mais atingidos: o pé e o joelho direitos, o vazio da barriga do lado esquerdo cujos pequenos espasmos faziam-no mudar o ritmo da respiração. O olho esquerdo e a mão direita que sentia muito grande e bandada e a boca que continha um fermento qualquer.
A enfermeira chegou para observá-lo uns instantes; depois, desapareceu. Veio com o médico que lhe observou o olho e a boca e acendeu uma luz na garganta; depois ficou falando com a enfermeira em voz baixa.
Ali estava o homem. Nada lhe perguntava; e naturalmente sabia que viera da garagem da Policia Política; seu tique nervoso e seu olhar fugidio demonstravam inquietação.
A enfermeira sentiu o braço de Henrique e olhou-o demoradamente. Não reagiu; ficou só olhando a espera de que ele fizesse um sinal. E a voz saiu roufenha, trabalhada pelas asperezas dos lábios e gengivas: “O que eu tenho?...” e não deixou que ela respondesse o “pode ficar tranqüilo...”.
- Merda, quero saber o que está quebrado?...
Ela baixou os olhos, devolveu seu braço a cama, cobrindo-o. Depois passou-lhe a mão de leve pela testa.
Preparava um comprimido dissolvido em água Morán entendeu que era difícil falar e que ela não lhe daria agora as respostas...
- Tome, que vai sentir-se melhor. Você precisa ficar forte depressa.
Morán teve que submeter-se mais uma vez.
As ordens e a rotina do hospital não eram quebradas como fora seu pé e sua mão esmagada. Já sabia não estar mais cego e que poderia recobrar-se para nova guerra com aqueles cinco homens. Ele só, desarmado, amarrado, seminu; eles com cassetetes, tomada elétrica, tina d água; as ofensas, os gritos, as pancadas na sola do pé, nos escrotos... A morte ausente.
Aqueles homens eram apenas esbirros. Nenhuma coisa os norteava que não fosse exercitar-se para agradar, para satisfazer aquele que comandava; excediam-se em violência, tentando amedrontar, apavorar, retirar a última dignidade de um homem.
Os olhos odiavam a resistência do preso, sua quase indiferença pelas ameaças; seus gemidos e estertores mecânicos como se apenas o corpo estivesse atingido pelas pancadas e pelo estrangulamento.
Os ossos esmagados da mão não são memória, não se articulam mais. Enrique tem agora poucas esperanças que os exercícios pudessem acertar as coisas. Nos curativos vira o deslocamento, o vazio no que fora o carpo ligando aos dedos.
Voltar ou não voltar à garagem; ir ou não ao inferno, naqueles momentos, pesava menos do que pensar no seu trabalho. As mãos necessárias para quem tem ofícios de operário, o toque dos instrumentos, o ajuste de uma peça que vai ao lugar quando se arma e começa a montar.
A figura que guarda a porta ao lado de fora e que por vezes o espiara, lembrando que deveria voltar a sala á sala de torturas, só causou momentânea ansiedade. Afinal, nesta guerra algum não deve ficar pensando em sua hora; ela chega quando as coisas estão acontecendo. O que Morán precisa não pensar é aquilo que sabia não ser certo, uma paixão de ofício, uma preocupação de serviço, como se somente pudesse fazer o que sempre fizera, mas que não é apenas isso que marca o operário, pelo menos não marca a determinação de um homem nesta guerra sem quartel que está preparando o final dos tempos.
(*) Walmor Marcelino era jornalista e escritor em Curitiba, Pr.