Já que vamos falar de educação resolvi abordar um tema que vem sendo discutido em várias fontes voltadas para a educação: a disciplina de educação física no espaço escolar.
Com a proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) a educação física sai de uma visão apenas biológica e incorpora outras dimensões: a afetiva, cognitiva e sociocultural. O objetivo é enfatizar um ensino em que o educando tenha acesso a conhecimentos, habilidades e atitudes acerca da cultura corporal, considerado como objeto de estudo da educação física e passe de um individuo que somente faz práticas corporais para aquele que entende o que faz e como.
Há tanto tempo esta disciplina é relegada ao segundo plano não só nas escolas como no universo dos jovens que nunca a viram como um fator de aprendizado e sim como “vamos matar o tempo da aula”. Por outro lado pesquisas mostram sua importância na vida escolar dos jovens e também mostram que os professores não tem acesso ao conhecimento sobre a integração dessa prática com outras áreas do saber.
O coordenador do curso de licenciatura da Faculdade de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, Osvaldo Luiz Ferraz, afirma que nunca se produziu tanto no meio acadêmico em relação ao que se pode fazer com a educação física no espaço escolar além dos meros exercícios práticos. No entanto, ressalta, tudo ainda encontra-se distante da realidade dos professores, que não têm acesso ao conhecimento e muito menos tempo para adaptá-lo de forma adequada à sua realidade. Sendo assim, a educação física continua sendo vista como algo menor na grade curricular das escolas de ensino fundamental e médio, tanto pelas Secretarias de Educação, diretores, professores, como pelos familiares e alunos. (**)
Deveríamos aproveitar o momento que estamos vivendo em que a atividade física está tão valorizada, fundamentalmente por questões relacionadas à saúde, a qualidade de vida e a longevidade e levar essa discussão mais adiante.
A mídia tem falado nesta questão do bem-estar, da qualidade de vida e da importância em se exercitar a todo instante, criando uma necessidade muitas vezes artificial. No entanto, deveríamos pegar esse gancho e aproveitar para crescer essa cultura pelo exercício físico nas escolas também e não só em academias, como se faz hoje.
Muitos de nós tomamos consciência do tipo de vida que estamos levando, o sedentarismo e as condições de trabalho que aumentam cada vez mais o número de doenças cardíacas, cerebrais, entre outras e que é preciso mais do que nunca sair desse estado de inércia.
Se voltarmos um pouco a história até os idos da revolução industrial, o homem deixou o campo e pôs-se a trabalhar em atividades repetidas que exigem pouco exercício corporal. As causas dessa inatividade tem se tornado uma ameaça a saúde pública.
Por isso chegou o momento de programas de educação física escolar serem reconhecidos como comportamento-chave na promoção da saúde a fim de tentar atenuar os males que afligem a sociedade contemporânea.
O jovem que cresce numa cultura que promove o exercício físico não apenas como prática competitiva vai estar sempre disposto a novos desafios e construirá relações de amizade que o levem a um caminho mais saudável.
Quanto aos profissionais o desafio é encontrar uma forma para ajudar as crianças a desenvolverem um comprometimento com a sua condição física e saúde por toda a vida. Criar uma cultura pela prática do exercício físico leva tempo, mas é preciso começar de alguma forma.
É por meio do movimento que o ser humano se relaciona com o meio ambiente para alcançar seus objetivos, ressalta Ferraz. “Comunicando-se, expressando seus sentimentos e sua criatividade, o ser humano interage com o meio físico e social, aprendendo sobre si mesmo e sobre o outro.”
Sabemos que as crianças têm motivação natural pela atividade física, o ponto-chave é iniciar um programa de atividades o mais cedo possível, constituído de práticas interessantes e motivadoras e garantir que elas possam ser bem-sucedidas.
Como fazer com que a escola implemente um projeto pedagógico em que a especificidade de cada área seja integrada num todo maior? Estudiosos da USP citam os jogos, brincadeiras, ginástica, dança, ou seja, toda e qualquer manifestação corporal. Um exemplo disso é o ensino da cultura popular brasileira por meio da dança, como o maracatu, o bumba meu boi que são apresentados nas escolas de forma lúdica, buscando resgatar valores culturais perdidos em meio a tanta massificação da cultura popular.
João Batista Freire, doutor em psicologia escolar e mestre em educação física defende uma educação de corpo inteiro. Para ele o movimento intencional é importante para a organização cerebral. Propõe a musicalização como um meio de favorecer o letramento e reduzir os níveis de ansiedade e estresse, aproveitando para levar os alunos a usar as palavras na produção de texto individual e na organização de um conteúdo coletivo e sugere que quando há espaço para a inter e a transdisciplinaridade, as atividades físicas podem ser trabalhadas nas aulas de português e de idiomas, por exemplo.
O problema da educação física é deixar de ser reconhecida apenas como um esporte sem importância no âmbito escolar e passar a ser importante para todos, como uma práxis transformadora.
(**) Em entrevista à Revista Educação, ano 13, n. 149, pagina 26
(*) Maria Izabel Leão é jornalista e educomunicadora em São Paulo.