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CONTO
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PLEIBÉQUI

(*) José Resende Jr.

 

Só fui reparar que era a Creuza quando ela já tava lá, no meio do palco, as luzes todas em cima, tinha até começado a cantar. Como eu ia adivinhar, se o locutor anunciou um nome que não era Creuza? Burro, na hora nem me passou pela cabeça, todo artista muda de nome pra ficar mais chique, se bem que, segundo a revista, já tem mãe batizando filho com nome artístico pra não precisar trocar depois de grande. E só quando a Creuza já tava lá no meio do palco e do refrão da música foi que me lembrei da promessa que ela fez uns anos atrás, nem era promessa, era mais um sonho, “eu vou ser cantora”, e eu ri, e não podia ter rido, ela me disse depois, quando eu telefonei pro salão de beleza pela décima vez e ela, cansada de mandar a Dirce dizer que tinha morrido e que queria que eu morresse também, pegou o telefone e gritou“você não podia ter rido de mim, podia ter falado du-vi-deo- dó ou sei lá acho que vai ser difícil porque o que mais tem neste país de merda é cantora de merda, podia falar qualquer coisa, menos rir na minha cara.” Eu não devia mesmo ter rido, porque ela não riu naquele dia quando a gente namorava e eu disse que ia ser jogador de futebol, ela ficou séria, “seé o que você quer, dou a maior força”, mas eu não fui jogador de futebol, não fui porra nenhuma, e ela agora era cantora, tinha palco, luz azul e tudo.

Tanto tempo vivendo junto e eu nunca soube que ela tinha voz, a Creuza não cantava nem no chuveiro, acho que porque a água era fria e ela vivia me cobrando chuveiro quente, “água fria faz bem pra pele”, eu desconversava, mas naquela época ela tava pouco se lixando pra pele, não sei hoje em dia, pra ser artista tem que ter pele bonita, parece que é exigência contratual: nome bonito, pele bonita. Nome bonito ela agora tinha, não lembro qual, sei que não era mais Creuza, a pele eu não reparei, não dava pra ver naquela luz escura. A voz é que era uma coisa de doido, eu dava tudo pra entender o que ela tava cantando, mas era inglês, e eu não sabia que ela sabia inglês.

Como são as coisas... Nem cinco anos desde o dia em que eu ri quando ela disse que ia ser cantora e a Creuza me aparece com outro nome, artista, e ainda por cima cantando em inglês. O pastor é que não ia gostar, esse negócio de falar outras línguas é coisa do demônio, ou do espírito santo, não lembro agora, eu só ia à igreja pra acompanhar a Creuza,
nunca dei um puto praqueles sacanas, ela é que dava, mas aí o salão, se é que alguém podia chamar aquela portinha mixuruca e aquela feiúra toda de salão de beleza, aí o salão foi fracassando, fracassando, e eu nada de arrumar emprego, se bem que acho que ninguém tinha nada a ver com isso, nem deus nem diabo, e ela foi reclamar pro pastor, e o pastor na maior cara dura, “irmã, seu dízimo tá sendo pago com pouca fé”, e ela, “ah é? ah é? pois agora é que eu não dou mais um centavo”, embirrou, e não deu mesmo, e o salão nem melhorou nem piorou, ficou ruim igual.

Mas isso não tem mais importância, ela deve ter fechado o salão pra virar cantora, é lógico, e foi sorte ter largado também a igreja, o pastor não ia deixar esse batom e esse esmalte, logo a Creuza que nunca usava maquiagem, só pra esconder as manchas de quando eu cansava de entrar em fila pra procurar emprego e descia a mão na cara dela, e naquele dia ela disse “nem quando você me bate dói igual agora que você riu porque eu quero ser cantora.”

E eu bem ali, na beira do palco, olhando pra cima, ela podia me ver se quisesse, acho que até olhou pra mim, mas não me viu, ou fingiu que não viu, e isso foi o pior de tudo, ela podia ter olhado com raiva, “aí, babaca, eu não disse que ia ser cantora?”, mas não, só olhou pra mim e mais nada. Não sei se foi de saudade ou remorso que eu levantei e bati palma, e era só eu aplaudindo, a boate inteira achou que eu tava bêbado e eu tava mesmo, mas não foi só por isso, era bonita, a voz dela, ainda mais em inglês. Ô pessoal que não prestava nem pra aplaudir, só teve um que puxou um assovio meio desenxabido quando ela deixou cair o vestido assim de qualquer jeito no chão e pisou em cima de salto alto, logo a Creuza que nunca deixava roupa caída no chão, acho que porque era ela quem tinha que lavar depois, nem usava salto porque ficava muito alta e isso eu nunca tolerei em mulher, podia até ganhar melhor do que eu por conta da conjuntura econômica e tal, mas me olhar de cima pra baixo, isso nunca.

E ela ficou linda assim, cantando em inglês, de salto alto e calcinha, até virou de costas pra gente ver que era fio dental, fio dental e vermelha, ela que no nosso tempo só usava calcinha branca de algodão, ela assim de costas, só com aquele cordãozinho vermelho enfiado, e eu olhando pralgum lugar nenhum pra não reparar se tinha celulite na bunda dela,
era falta de respeito, eu já tinha rido quando ela falou que ia ser cantora, não podia ficar conferindo estria e celulite agora que a Creuza era artista e nem se chamava mais Creuza. E ela enfiava devagar os dedos no elástico da calcinha e rebolava e começou a tirar, confesso que achei bonito, aquilo, tirava a calcinha sem parar de cantar, puta coordenação motora, logo ela que não conseguia nem fazer almoço e escutar rádio ao mesmo tempo. E eu acho que era o único ali de pau mole, o cara perto de mim fedendo a suor e uísque paraguaio até
botou o dele pra fora, eu achei o maior desrespeito, mas não sei se foi por isso que eu broxei, sei lá.

O peito dela é que era o mesmo, só faltava ter botado silicone, pensei, mas aí já seria muito exagero demais, ela morria de vergonha do peito grande, juntava dinheiro pra fazer operação, vivia anunciando “vou arrancar metade”, até mentir ela mentia pro pastor: aumentava o prejuízo do salão pra reduzir o valor do dízimo e guardar a grana da operação.
Só ficou sossegada quando entrou essa moda de peito grande, as bacanas botando silicone, bom saber que pelo menos o peito da Creuza era o mesmo que eu conheci.

E eu juro que ia ficar ali quietinho, vendo ela cantar pelada em inglês, depois ia beber mais um pouco até criar coragem e, sei lá, dizer “lembra de mim?”, “lembro, você é aquele babaca que riu na minha cara quando eu disse que ia ser cantora”, ela talvez respondesse, mas eu juro que se ela dissesse isso eu ia embora numa boa e podia ter acabado tudo bem, se não fosse aquele punheteiro perto de mim balançando o pau com uma mão e enfiando a outra no meio das pernas da Creuza, aí era demais, eu levantei e não falei nada, só quebrei a garrafa na cabeça do pau dele, e espirrou sangue pra tudo que era lado, acho que tava cheio de sangue o pau do cara, todo pau duro é assim, sangue que não acaba mais.

Aí vieram os seguranças de colete preto e já chegaram me dando porrada, eram dois, um só dava pra fazer o estrago, não sei pra que dois, um exagero, dinheiro jogado fora, e eu lembro que a última vez que eu abri o olho, só um olho, o outro acho que não vai abrir nunca mais de tanta porrada, a Creuza tinha parado de dançar, tava só de salto alto, pelada, me olhando de cima pra baixo, como se agora soubesse quem eu era, e cantando, com a boca fechada mas cantando, eu não sei como ela conseguia cantar de boca fechada, e de repente
ela começou a rir, tremia o corpo todo, balançava os peitos de tanto rir, mas continuava cantando, e em inglês, os caras me enchendo de porrada e ela rindo e cantando sem desafinar uma nota e era uma canção de amor eu sei porque tinha love no meio e ela ria e cantava love e era linda e não parava de rir.

E eu não sabia que ela sabia rir.

(*) José Resende Jr. é jornalista e escritor em Curitiba, Pr.

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