Artigo apresentado no "Coloquio Internacional sobre la Escuela Latino-Americana de Comunicación, 2004, em São Bernardo do Campo-SP, no ano de 2004.
RESUMO: Aborda o modo pelo qual duas matérias sobre saques ocorridos na Central de Abastecimento (Ceasa) do Rio de Janeiro, publicadas no mesmo dia em dois jornais, Folha de S. Paulo e O Dia, e estruturadas a partir da técnica de redação do lead, evocam diferentes produções de sentido. Adota, enquanto metodologia, a Análise do Discurso, por meio da qual é possível apontar nos textos o implícito – não-dito – e a presença da intertextualidade e da
interdiscursividade. Mostra como o lead deixa marcas implícitas na notícia, que podem ser percebidas ou não pelo leitor. O não-dito, o intertexto e o interdiscurso reforçam uma visão de mundo – a ideologia - evidenciando o desequilíbrio do poder na sociedade. Conclui-se que os textos analisados não privilegiam a reflexão e a crítica por parte do leitor sobre os fatos relatados. Cada um deles segue uma vertente, nas quais há tanto a banalização da notícia quanto a simples descrição dos fatos.
Introdução
A linguagem permite inúmeras manobras com vistas a induzir um determinado significado cujo teor é voltado para manter uma condição hegemônica ou levar o receptor a uma reflexão sobre os fatos relatados. A escolha de um ou outro parâmetro fica a critério do sujeito enunciador que também pode não estar ciente dessa flexibilidade lingüística.
Uma das formas de aferir o uso da linguagem e a produção do sentido é a técnica da Análise do Discurso, disciplina com suporte da lingüística, afim à História, Sociologia, Psicologia e Filosofia e à formação ideológica dos textos, que tem os enunciados enquanto objeto de estudo.
Diferente da seqüência estabelecida pela comunicação entre emissor, mensagem referente, código e receptor, o discurso é concebido de outro modo, distanciando-se da noção de simples transmissão de informação. Na língua, segundo Orlandi (2000), não há separação entre emissor e receptor. Eles realizam simultaneamente a significação. Palavra em movimento, o discurso é considerado um efeito de sentidos entre os locutores.