CONTO ___________________________________________________
Minha mulher ficando careca
(*) Jamil Snege
Quando ela abaixou-se para erguer uma cebola é que percebi. Uns claros de brilho oleoso no couro cabeludo.
Falei-lhe francamente na hora da sopa. Ela ergueu-se, o prato intocado, e correu ao espelho. Voltou e atirou-se ao meu pescoço. Chorava. Consolei-a de uma maneira infame: seremos dois, disse, também sou calvo. Ela afastou-se com um repelão e, aos soluços, trancou-se no quarto. Tomei a sopa sozinho, partindo com a colher uns crânios translúcidos de cebola. Ficaria ela assim? – e perdi o apetite.
Cortou o cabelo bem curto e iniciou a via-crúcis a que se condenam os mártires da recuperação capilar. Babosa, óleo de rícino, gemas cruas, petróleo quinado. A doméstica e ineficaz farmacopéia dos ungüentos, associada a calendários lunares e outras crendices. Animei-a a experimentar fármacos de última geração. Ela topou e foram meses de expectativa, ao fim dos quais o seu cabelo adquiriu um tom de chumbo que lhe sombreou o rosto. Contemplei-a certa manhã e constatei que a juventude lhe abandonara de vez. Em compensação, os cabelos pararam de cair e ela assumia uma expressão madura, bonita, de serena resignação.
Comprou roupas novas e, para minha satisfação, caras e muito elegantes. Tudo muito sóbrio – cinza, lilás, uns azuis marinhos. Blazers, calças compridas, camisas de renda francesa. Flagrei-a esvaziando o guarda-roupa de saias e vestidos. Vi-a socando numa sacola de plástico seu tesouro de lingerie (para meu espanto, a sacola amanheceu na lixeira). Da penteadeira foram banidos os extratos florais – restaram-se e multiplicaram-se os cítricos e amadeirados.
A transformação não parou por aí. Encomendou-me cigarros turcos – e seu hálito adquiriu um forte odor de tabaco. Invariavelmente, após o jantar, serve-se de um copo de conhaque. Então discorremos longas horas sobre mapas antigos, civilizações perdidas, poesia inglesa do século XVIII. A fim de encorajá-la nessa fase de transição, presenteei-a com um cantil de prata lavrada e uma faca italiana de lâmina retrátil. Visitamos antiquários, tabacarias, adegas, castelos. Já não a apresento como minha mulher, apenas menciono-lhe o nome. O que não é ideal – seu nome, Louise soa excessivamente feminino.
Ainda enfrentamos alguns constrangimentos. Antigos conhecidos mostram-se chocados com sua aparência. Os garçons dirigem-se a ela de forma neutra, evitando o senhor ou senhora. Rimos às vezes da confusão de uns, outras vezes nos magoam reações de animosidade. Mulheres desacompanhadas flertam conosco na penumbra dos bares.
Seus cabelos ficaram mais fortes, mas ainda exibem uns claros de brilho oleoso. Ela adotou o corte baixo, discreto, o pente deslizando para trás das orelhas. Relutei-me muito antes de decidir-me. Uma noite, após o jantar e os conhaques arrisquei: