CONTO ___________________________________________________
Conto: Estrangeiro na Fronteira
(*) Emerson Dias
(em homenagem às mulheres que perderam companheiros e filhos para o tráfico)
Olhei pra rua e vi...
Mesmo do segundo andar, percebi que os fantasmas que acompanhavam aquela moça tentavam acabar com ela antes de chegar à fronteira. Dois deles. Ágeis, manhosos e que sabiam onde cutucar. E as chagas eram tantas... Feridas recentes conquistadas em tão poucos anos. Mesmo com um corpo grande e leitoso, os vitrais eram frágeis, voláteis... Sensíveis a ponto de vibrar furiosamente com as ondas musicais de Lou Reed como lâminas afiadas que atingiam o cérebro e percorriam os ossos, chegando às cavernas daquele velho músculo que bombeia sangue arterial e venoso. Um dos espectros, o maior, usava as palavras gravadas na memória dela para tentar mantê-la atrelada à história mentirosa que viveram juntos durante meses tão escassos que se arrastaram até a represa onde somente ele conseguiu atravessar. O cara tinha o corpo disforme, dividido em partículas de hipocrisia que cruzavam facilmente os filtros da barragem. Pior, ia e voltava como quem contrabandeia frases feitas sem perceber que ela o via agindo ilegalmente.
(Apaixonar-se é permitir que o outro erre diante de seus olhos...)
A outra sombra tinha uma imagem angelical. Querubim em dia de chuva e sol. Mesmo assim, com a inocência costurada em seu lençol amarelado, era ele quem enfiava o dedo na ferida com violência. Sem querer... Sem entender porque doía tanto sua proximidade junto aos braços dela. Mesmo de longe dava pra ver que o espírito daquele niño que tropeçava sobre os próprios passos era acompanhado pelos olhos cientes que nunca o colocará em seu colo, que nunca dará seu peito para sugar leite. O rosto do garoto não possui formas familiares, mas linhas pontilhadas que já foram preenchidas milhões de vezes na mente dela. A mulher não sabe o tamanho do rebento nem a cor dos olhos ou a força dos músculos e muito menos se os cabelos são lisos ou encaracolados. Mas sabe a idade dele, dia após dia, mês após mês, um calendário vivo que a persegue desde que decidiu não aceitá-lo, que o havia perdido na briga eterna que tem com a fronteira. Desde então é um fantasma que cresce na sua cabeça, um ser que caminha ao seu lado sem poder ouvir as desculpas de alguém que insiste em martirizar-se culpada.
Não posso descer agora... Tá frio e chuvoso e os passos dos três são rápidos. Prefiro vê-la se esforçando para proteger o moleque da garoa enquanto empurra o outro para o meio da rua, tentando jogá-lo embaixo de um caminhão, matá-lo pela milésima vez...
Mas ele não morre... Mesmo porque ela, lá no fundo d’alma, também não deseja que isso aconteça. Precisa dividir, mesmo com alguém que não quer mais, a dor de não ter decidido antes da evolução, antes das mórulas e blástulas. Antes de ter descoberto o sentido da existência dos homens sobre a terra: caminhar olhando sempre pra trás.
Daqui a pouco será minha vez de levar fantasmas pra um passeio. Cruzar a fronteira oferecendo propina à morte e ao futuro nebuloso, na esperança de poder voltar algum dia para os braços da infância inocente que tive.
(*) Emerson Dias é professor e jornalista em Londrina, Pr. O conto "Estrangeiro na Fronteira" foi publicado originalmente na revista Escrita, edição 10