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CRÔNICA
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Depois da tatuagem

(*) Célia Musilli

 

Nenhuma espécie deseja se comunicar tanto, a ponto de desenhar emoções à flor da pele

A decisão de fazer uma tatuagem foi poética. Quis a borboleta no pulso, sonhei com ela durante meses, acabei satisfeita, mas saí do tatuador com o sentimento de que minha escolha – uma borboletinha – era um decalque de chiclete perto das pessoas que vi cobertas de desenhos, como um gibi.

Você já viram tatuagens de perto? Quero dizer aquela profusão de cores e imagens que às vezes transformam braços em países, pernas em avenidas, tórax em mapas, pés em florestas, mãos em tela de cinema em 3D?

Pois é, o mundo das imagens sobre a pele humana é tão fascinante quanto saturado de informações. Não bastasse a mídia, a TV, as estações de rádio, os jornais, a internet, agora rabiscamos o corpo na tentativa de expressar o que vai por dentro. Esta condição me faz pensar na necessidade de nos comportarmos como a espécie mais comunicativa do planeta. Por isso, usamos desenhos como emblemas de nossas emoções, ideologias, crítica, esperança, rebeldia.

Cutucamos permanentemente uns aos outros com informações sobre nós mesmos ou sobre nosso tempo. Se nossos ancestrais rabiscavam paredes, hoje desenhamos no próprio corpo de forma elaborada, elevando à condição de costume bem aceito um tema que já foi tabu. Há poucos anos, tatuagem era coisa de gente mal vista, considerada de segunda categoria.

Para nossa sorte, as tatuagens hoje não só “frequentam as salas”, como caíram por terra os conceitos que a ligavam à marginália. A vantagem é nos transformarmos numa espécie cada vez mais tolerante, com os diferentes ganhando terreno de um modo que até mesmo os exóticos se misturam ao comum da raça, embora chamem a atenção pela exuberância.

No caso dos tatuados, botem exuberância nisso: jovens que ostentam tantas caveiras que até parecem o ossário de algum cemitério público; carecas que pintam na cabeça um cortador de grama; grávidas que transformam o umbigo numa Via Láctea; corações flechados; apaixonados cravando o nome de um ou outro no peito; frases bíblicas, nomes em latim, letras em grego. E se vale até latim, por que não a palavra indígena que tatuei no braço? Panapaná, o coletivo de borboletas.

Estamos de um jeito que nem sabemos mais o que queremos comunicar, mas estamos na ativa, procurando um lugar ao sol, levando uma mensagem que nos identifique no meio do limbo do anonimato, no mundo das superpopulações, na saturação da cidade grande, no excesso de informação com o qual contribuímos com nossos “letreiros”, outdoors humanos cuja existência reformula os meios, fazendo do próprio corpo um instrumento de comunicação. Pode ser que nada disso adiante e que o excesso de signos cada vez mais nos confunda.

Mas se por um lado, a saturação parece vaidade ou afirmação da identidade, por outro, reflete a suprema necessidade de se relacionar, porque ninguém se “pinta” para não ser visto.

Emblema, código, meio, mensagem, o corpo transforma-se em monumento da expressão, talvez a última fronteira para que, enfim, possamos comunicar nossa sensibilidade. Nenhuma espécie preocupa-se tanto em demonstrar o que vai em seus corações e mentes, a ponto de desenhar emoções à flor da pele. Só por isso, os homens-gibis já merecem minha simpatia. E me junto a eles com uma borboleta no pulso, decalque e testemunha do meu próprio tempo, para romper o silêncio, ainda que ninguém fale.

 

(*) Célia Musilli é escritora e jornalista em Jaú, SP. Crônica publicada originalmente no blog "Sensível Desafio", editado pela autora.

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