CRÔNICA
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Cuando yo te vuelva a ver
(*) Izabel Campana
Buenos Aires. Cafés, alfajores e Borges por todos os lados. Aquele friozinho civilizado e muita chuva. "Buenos Aires é uma cidade muito melancólica, a chuva lhe cai bem". É a versão dos nativos.
Foi essa Buenos Aires que decidi conhecer. Não vi a cidade dos shows de tango e dos turistas. Quis ver a Buenos Aires dos argentinos. Foi fácil. Em pouco tempo, me senti em casa.
Talvez seja o frio, o tempo cinza, a chuva. Me lembram a minha Curitiba. Mas mesmo o que tem ali que a minha Curitiba não tem me lembra a casa. Em todos os cafés, em todas as livrarias e nas salas de tango, um aviso. Borges esteve aqui. E Borges me lembra a casa. Por uma paixão do pai, estantes cheias de Borges são tão argentinas quanto curitibanas para mim.
Podia viver em Buenos Aires. O que me incomodou na cidade foram os conterrâneos, os brasileiros. Aos milhares chegavam falando alto a língua pátria e arruinando minha tentativa de viver a experiência argentina. Gritando no Cementerio de la Recoleta em busca do túmulo de Evita. Ou de Madonna, não sabem bem a diferença. Imagino Bioy Casares a se revirar na tumba ao som da horda que perturba um velório.
Quis ser argentina. Apesar da crise, apesar de Cristina Fernández de Kirchner. Apesar de tudo. E, principalmente, com uma livraria em cada esquina. Livrarias por todo lado com cafés onde se pode sentar. E ficar. Eu nem tomo café. Mas um mate cocido e uma medialuna me caem muito bem, obrigada.
E os livros. Sebos repletos de obras do século XV. Lojas lindas, amplas, limpas. Vitrines bem cuidadas. Há gente nos sebos. E nada de leitura obrigatória. Livros técnicos, didáticos, paradidáticos e pseudo científicos devem ter um lugar próprio de venda. Nas livrarias não.
Fui muito bem atendida. Aliás, muito simpáticos os argentinos todos. Grande bobagem que são arrogantes. Sim, tem lá sua auto-estima elevada. Ótimo. Nada mais demodê que a auto-piedade. Além da palavra demodê, é claro.
Essa mistura de simpatia com confiança é muito acolhedora. Não é à toa que nós, brasileiros, invadimos o país vizinho nas férias e feriados. Vamos comer um bom bife de chorizo em Puerto Madero, um belo doce de leite, aproveitar o free shopping. Tudo bem. Mas vamos também porque o povo argentino é uma atração à parte.
A verdade é que nos recebem de braços abertos. Há quatorze anos conheci Lorena na Inglaterra. Desde então, trocamos cartas, telefonemas, depois e-mails. Mas não nos vimos mais. Em Buenos Aires, minha amiga argentina viajou duas horas en el colectivo para me ver. Me levou à Tigre, cidadezinha de veraneio dos casais argentinos. Não poderia imaginar acolhida mais calorosa.
O que dizer então do senhor Wilfred? Essa figura nos encontrou com guias e mapas abertos em plena rua buscando um restaurante. Ofereceu ajuda. Wilfred mora em San Telmo há 30 anos. Conhece tudo, mas esquece um pouco.
O senhor Wilfred nos leva andar em círculos até que encontramos o restaurante em questão. Um lugar que serve os trabalhadores locais. Nosso guia entra conosco e senta. Carne, vinho e postres. Ao fim do almoço, já nos contou mais sobre o Brasil do que nós mesmos conhecemos. Viaja à passeio ou para reuniões de carpintaria. Além de carpinteiro, ele também escreve. Ficção. Todos os argentinos também são escritores ou psicanalistas.
São cinco da tarde e o senhor Wilfred ainda não parou de falar. Pronto. Perdi todo o passeio. Não fui à Boca. Não conheci o Caminito. Uma sensação de ter sido raptada por esse senhor argentino toma conta de mim. Fico chateada com o adiantado da hora. Quero ir embora.
Corto o coração de Wilfred e me despeço. Ele se propõe a nos acompanhar ao hotel, mas é longe e não há necessidade. Andando de volta, penso no passeio perdido e no encontro espontâneo com meu novo amigo portenho. Não estou mais chateada. Sempre se pode ir ao Caminito. Uma razão mais para voltar à Buenos Aires.
(*) Izabel Campana é advogada em Brasília, DF. A crônica acima foi publicada originalmente no site da revista Ideias. Para ler mais artigos de Izabel, clique aqui.
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