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CRÔNICA
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O tempo

(*) Vanessa Campos

 

De vez em quando eu atravesso o portal do tempo e vou parar em uma pequenina cidade, onde morei na adolescência. Quando eu estou indo para lá, descendo e subindo as montanhas, penso que estou no presente. E que eu sou eu. E que hoje é hoje. Mas em alguma curva da estrada, atravesso uma passagem pelo tempo e assim que entro na cidade, estou nos anos 90.

Eu volto a ser uma adolescente animada, que dirige um fusca chamado Nicolau e toma cachaça as seis da tarde no Cê-qui-sabe. Mesmo que eu tenha trinta e tantos anos, uma casa com um plátano gigante, muitos trabalhos, um cabelo torto e um marido barbudo, sou uma adolescente. Mesmo eu sendo uma eu mais velha, tenho 18 anos e acabei de tirar o aparelho. E uso botina do Pontão e nado no quilombo.

Todo mundo fala comigo no diminutivo. Danadinha publicou dois livros! Gracinha casou com um moço que faz cinema. Ardidinha ainda gosta de cachaça. E eu sinto que ali, naquela cidade, o tempo não é linear. O tempo não existe.

Os amigos que nunca mais vi continuam meus melhores amigos. As confidências, as dúvidas e as músicas no violão são as mesmas. Os amores que tive continuam sendo os meus amores. E os que não tive, nunca vou ter, por que nessa cidade não existe futuro.

As pessoas que não gostavam de mim por que um dia dancei com o filho de 17 anos do dono do açougue ou por que fui nadar com o filho do fazendeiro, continuam não gostando de mim. Quando elas me vêm estão sentindo a rivalidade nesse exato momento. Nessa cidade não existe passado.

Dois dias na cidade e eu continuo sabendo que sou eu. A minha vida ainda é minha. O maridinho e as piadinhas às sete da manhã, café bem preto, os livros, as crônicas e um cachorrinho chamado Miguelito. Tudo vai bem. Três dias: começam as dúvidas. Ele gosta de café no copo? Será? Quatro dias: eu não sei, acho que ele tem um e oitenta e se não me engano usa barba. Cinco dias: eu casada?? Mas como?Só tenho 18 anos. E gosto daquele cara ali que toca bateria. Não, daquele que anda a cavalo tão bem!! Ah, que nada! Eu gosto é de tomar cachaça as seis da tarde do Cê-qui-sabe e de nadar no quilombo!

Sexto dia: ele me resgata. Devolve minha idade, meu amor, minha profissão, minhas escolhas. Fico cabendo em mim de novo. Fico feliz da vida de ser eu e de ter trinta e tantos anos.

 

(*) Vanessa Campos é escritora, psicóloga e cineasta em Taubaté, SP. O texto acima foi publicado originalmente no blog Eu, Ele, Nós, os outros, e ditado pela autora.

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