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CRÔNICA
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Samba de Brasília

(*) Izabel Campana

 

Desde que mudei para Brasília me deparo constantemente com o comentário. Ah é? Mas você tá gostando?

Tou. Eu gosto de Brasília. Acreditem os crédulos.

Quando, em 1962, Clarice Lispector escreveu sobre Brasília, a cidade era só paisagem. Era só Costa e Niemeyer. Clarice avisou que era urgente fosse superpovoada.

Foi.

Brasília não é mais a cidade fantasma que conheci aos 12 anos. E eu gostei de Brasília assim, morta e vazia.

Acho que para gostar daqui tem que gostar um pouco da solidão. De andar na L4 como se fosse uma estrada para o nada. Seguir com os olhos a linha do Congresso Nacional em direção a um céu infinito de nuvens que parece mais fundo do que qualquer céu de qualquer cidade.

Mas a cidade obedeceu a ordem de Clarice. Para gostar de Brasília, não basta mais esse lado anti-social. É preciso ser ambíguo no Distrito Federal.

Povoada pelo nordeste, Brasília tem hoje um lado acolhedor demais. Se a impessoalidade do Eixão te cansar, entre em uma superquadra e vá à padaria. Você vai encontrar sorrisos e ineficiência. Ah, tão humana, a falha.

Diferente de São Paulo, do Rio. Lá tudo é rápido e eficiente. A indecisão irrita o sudeste. Em Brasília não. Tudo é perdoado. Com um sorriso.

Não é que eu goste de tudo aqui. Algumas coisas são tão irritantes quanto um convite para ir à praia. Ondas alaranjadas de cones pelas ruas, por exemplo. Mas Brasília é cheia de idiossincrasias adoráveis.

Na capital federal você mora em uma cidade onde o carro é um passaporte para a liberdade. E para qualquer outro lugar se você não quiser trocar de ônibus na rodoviária do Plano Piloto.

Ao mesmo tempo, a superquadra é uma cidade de interior. Tem até prefeitura. Aqui eu tenho um açougueiro fiel, o verdureiro que me indica o alface mais fresco, a padaria. Que só não é da esquina porque aqui não tem disso.

Brasília tem também algo muito inglês que é a conversa sobre o clima. Em Curitiba esse papo não tem sentido. O tempo em Curitiba é previsível. É o caos anunciado.

Em Brasília não. A espera pela chuva é algo que começa individual. O ar difícil. Aos poucos, com o avanço da seca, o sentimento de aguardo é coletivo. Finalmente você está convencido de que a chuva é algo imaginário. Uma mentira que nunca aconteceu. Aí você recebe o anúncio.

O anúncio de chuva começa devagar e vem das árvores. A primeira cigarra da primavera. De repente a sinfonia de seres pré-históricos toma conta da cidade. Estou dentro de uma grande panela de pressão. Shsh shsh shsh...

Aqui se ouve: "Se Brasília fosse bom, Niemeyer morava aqui". Não é à toa que os cariocas odeiam a capital. Eles não entendem o humor de Brasília. É um humor sutil e próprio. Que ri de si mesma e não dos outros. Esse caldo de cultura cozido em um recipiente estéril. Uma moqueca fervida em Copo de Becker.

Quando Clarice escreveu, disse que o samba ainda não podia nascer em Brasília. O samba nasceu, mas não era carioca. Nem paulista. É um samba assim, candango e saudoso do passado que Brasília não tem.

(*) Izabel Campana é advogada em Brasília, DF. É cronista da revista Ideias onde publicou originalmente o texto acima.

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