CRÔNICA
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Memórias de um cão
(*) Eliana Tao
Já tem um bom tempo que ganhei outras denominações além do meu nome, como “véio” ou “véinho”, “antiguidade”, “peça de museu”. Nem sempre saio do sofá ou da poltrona quando me chamam, pois sou alguém muito temperamental, cheio de vontades.
Nunca fiquei chateado com os adjetivos que caracterizam minha condição atual, pois são vindos de pessoas que gostam de mim sinceramente. E são bem realistas, afinal sou um pincher com 11 anos de idade, cujos dentes, a capacidade visual e a beleza física diminuem a cada dia.
Ao longo desse tempo, vivi muitas coisas com meus donos e também com outros cães da casa. Alguns, meros companheiros de morada. Ou no caso dos meus parentes caninos, compartilhando o dia a dia até me deixarem por atingirem o tempo de vivência máximo de minha raça.
Assim ficamos eu e um boxer de 13 anos. Mas a vida calma não durou muito. Lembro bem do dia que a vida canina se renovou na casa. A chegada de um casal de chow-chow foi há dois anos e me causou muita estranheza. Apesar de eles terem cheiro e latidos típicos de filhotes, eram grandes. A aparência também me confundia: ora me pareciam cães, ora gatos, ora ursos, uma beleza exótica, com certeza.
E eu posso falar de beleza. Já fui muito bonito quando jovem. Minha dona voltava do colégio contando que, após verem minha fotografia na hora do intervalo, os professores dela diziam que eu tinha sido criado por um cartunista de desenho animado de tão lindo que me achavam. Um pincher com aparência muito semelhante a de um dálmata só podia ser considerado lindo, nada menos que isso.
Pena que essa qualidade não trouxe sucesso nos meus relacionamentos amorosos porque sempre me apaixonei pelas cadelas erradas. Primeiro, uma pincher aqui da casa, mas fracassou por incompatibilidade física entre nós. Anos mais tarde, a chow-chow. No caso dela a dor foi mais profunda porque, além de me esnobar por conta da diferença racial, ela saiu de casa por uns dias para namorar um pretendente que minha dona arrumou e voltou depois já na condição de cadela mãe de primeira viagem, segundo comentários dos donos do outro cão.
Por isso ela foi paparicada muito mais do que era antes e até depois do nascimento dos filhotes, em agosto deste ano. Ouvi dizer que eram dois machos bem negrinhos, com uma ou outra característica do pai que é um chow-chow branco-pérola. Quando eu fui chegar mais perto para ver os filhotes, a novata mãe caninha atacou meu pescoço como se fosse uma vampira. Quanto egoísmo! Afinal, eu só queria ver como eram os pequenos que tinham nascido e estavam ocupando o meu sofá. Não precisava ter me deixado uma cicatriz e um trauma.
Mesmo assim, os mimos e cuidados para como o trio foram se intensificando. E isso não foi nada bom para os filhotes. Não digo isso por ciúmes, mas sim porque fizeram os pequenos crescerem se achando os novos donos do pedaço. Ainda cheirando a leite já latiam e rosnavam para mim a toda hora, sem o menor respeito pelos cães mais velhos.
Já tem alguns dias que os filhotes não estão aqui: foram viver com seus novos donos, em novos lares. Aos poucos a vida volta ao normal por aqui.
Poxa, estou sentindo uma fome... Acho que recordar tantos acontecimentos gastou minha energia. Vou dar uma chegadinha na cozinha e descobrir que sabor tem minha porção de ração hoje.
(*) Eliana Tao é jornalista em Foz do Iguaçu, Pr. O texto acima foi publicado originalmente no portal Megafone.
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