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CONTO
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O amor surdo, mudo, morto

(*) José Rezende Jr.

 

O moço gesticula feito louco. Agita os braços, abre e fecha as mãos, move os dedos, risca o ar com raiva surda e muda. De vez em quando a moça balança a cabeça, encenando um “não” de incredulidade e tristeza. A briga chama a atenção dos pedestres que esperam a travessia da pista, nem tanto pela desavença em si, mas pelo silêncio estridente em que o amor acaba.

O moço vira as costas. A moça pousa levemente a mão no ombro dele, depois aperta com força, faz com que ele a olhe nos olhos. Agora é ela quem gesticula. O olhar dele tem faíscas. As mãos dela trovejam mágoas. Brigam em silêncio, porque não conhecem outro brigar e porque foi assim, com a linguagem secreta das mãos, que teceram ao longo do tempo este amor quieto, inquieto, prestes a se perder para sempre.

A moça eleva o tom dos gestos, o moço interrompe, segurando os pulsos dela: não quer ouvir mais nada. Tendo as mãos caladas, a moça tenta falar com os olhos, mas o moço desvia o olhar. Ela abre a boca, quer que ele a escute, mas de sua garganta muda sai apenas um grunhido de desespero, que o moço não pode nem quer ouvir.

O moço volta ao ataque, agita os dedos na altura do rosto dela. A moça cobre os olhos com as mãos para não ter que ouvi-lo. Ele a agarra outra vez pelos pulsos, exige que os olhos dela escutem toda a sua raiva. A moça não quer acreditar que as mãos que ainda ontem contavam histórias de amor pelo seu corpo inteiro sejam as mesmas que agora lhe açoitam a alma.

Os pedestres adiam a travessia, assistem sem pudor à cerimônia do fim. O moço e a moça miram-se por alguns segundos, com os olhares mudos. Exausto, o moço arranca do dedo o anel que tem gravado o nome dela, ao lado da data em que o amor foi declarado eterno. Quando sai, o anel deixa no dedo dele uma marca branca e ácida. A moça cruza os braços de horror, para não receber de volta o anel que o moço lhe estende e para não ser forçada a devolver este outro, igual, que reluz em seu dedo fino, com o apelido carinhoso dele gravado na tarde de um sábado antigo.

Irritado com a recusa, o moço abre a mão e deixa o anel escorrer entre os dedos, até tocar o chão sem qualquer ruído. Com o desespero estampado em cada linha do rosto, a moça vira as costas, hesita por um ou dois segundos, e então atravessa a pista correndo. Só quando chega do outro lado é que ela se volta e grita com as mãos desgovernadas, querendo perdoar ou ser perdoada, mas desta vez é ele quem lhe dá as costas. A moça então vai embora, surda, muda, e agora cega pela cortina de sal que lhe turva os olhos. É quando o moço desaba em si. Apanha o anel no chão, tenta atravessar a pista, o sinal está aberto, ele insiste, tropeça, tenta correr de novo, os carros freiam, buzinam, os motoristas xingam enquanto ele, paralisado no meio da pista, os dentes cerrados, grita o nome dela com os olhos, com as mãos, com a alma inteira despedaçada.

Mas a moça não olha para trás. Nunca mais verá o moço que grita em silêncio, no silêncio da cidade histérica.


(*) José Rezende Jr. é jornalista e escritor. O conto acima faz parte do livro "Eu perguntei pro velho se ele queria morrer", premiado com o Jabuti 2010.

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