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CRÔNICA

 

Um boicote a quem rouba troquinhos

(*) Natália Pianegonda


No princípio vieram as balinhas. Uma forma forjada de escambo mesmo após o advento da moeda de papel e de metal. Você pagava por um produto mais do que ele valia. No troco, eventualmente algumas notas para valores inteiros e as balinhas para os quebrados. Lembro de algum programa de humor, comercial, ou algo do gênero, em que o cidadão pagava pelo produto com balinhas. Ou com uma galinha. Se vale pra um, vale pra todos.

Agora, nem mais a balinha compensa a falta de vontade do mercador de devolver troco qubrado. A falta de vergonha na cara chegou no auge, porque essa parte do valor não mais retorna para o seu bolso. Se o que você deve receber de volta após suas compras é R$ 6,28, pode apostar que o caixa lhe dará R$ 6,25. A regra é arredondar. Pena que o arredondamento é quase sempre em desfavor do consumidor. Minha reflexão é: vocês não têm moedas de um centavo, senhores dos supermercados? E se não têm, por que, então, quebram os preços? Não é R$ 3: é R$ 2,98. Ilude quem compra, com um valor aparentemente mais baixo. E a “perda” é compensa no caixa, nos troquinhos não devolvidos.

E eu vou confessar: raras vezes tenho coragem de reclamar. Porque o valor parece sempre tão, tão pequeno perto da fila imensa que está atrás de mim… E aposto que isso acontece com muita gente. O absurdo é: a situação faz parecer que estamos pedindo esmola. “Moça, tem umas moedinhas aí? Pode ser um centavo, dois…”.

Enquanto isso, muitas vezes eu mesma assumo a função de empacotadora das compras. Juro que nunca me incomodei com isso. Acho que agiliza o atendimento. Mas eu acabo suprindo a deficiência de uma mão-de-obra que não é contratada em virtude, muito provavelmente, do corte de custos do supermercado. E ainda assim me roubam os centavos???

Olhando assim até pode parecer mesquinharia cobrar pelos centavos. Caro consumidor: não é. Porque o lucro extra arrecadado pela empresa nessa situação não retorna para o seu bolso, pode ter certeza. Exemplo disso é uma campanha (e essa eu aprovo) recentemente promovida por uma grande e tradicional rede de supermercados do Estado (ok, o Zaffari e Bourbon). Ao invés de ficar com os seus troquinhos, os centavinhos foram doados para redes de hospitais de Porto Alegre. A campanha foi denominada Troco do Coração. Somente na semana de 8 a 14 de novembro, a rede reuniu mais de R$ 4 mil que foram repassados ao Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre e à Santa Casa. Em uma semana. Multiplique por quatro e terá a média do mês: R$ 20 mil.

Minha concepção está mudando. Depois de ter sido roubada diversas vezes (eu sei que roubo significa que o ato é acompanhado de violência. Mas de alguma forma considero isso um ato violento… contra o consumidor), resolvi que, se não for para doar em nome de uma boa causa, cada centavo do meu troco será cobrado integralmente. Estão avisados? Cada centavo. E mesmo assim proponho, sempre que der, um boicote aos supermercados que ficam descaradamente com nossos troquinhos.

(*) Natália Pianegonda é jornalista em Porto Alegre - RS. O texto acima foi extraído do blog da autora. Para visitá-lo, clique aqui.

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