-
-
-
-
-
---
-
         
    
________________________________________________________________________________________________
 


guata_cultura


Clique aqui
e leia outro texto publicado no Tirando de Letra


___________________________________________________
CRÔNICA

 

Os tombos que me levam

(*) Jovimari Balotin

Nunca pensei que mergulhar no asfalto pudesse ser tão estranho. Mas também, será que não aprendi que mergulhos são próprios em águas? Mesmo que cair não estivesse em meus planos, num tropeço acompanhado de um único pensamento: "vou cair e não há o que fazer.", comparei a tragédia iminente com os instantes que antecedem a morte: "vou morrer e nada posso fazer!". E assim, um tombo espetacular ocorreu. Minhas mãos finalizaram o encontro com o cimento compactado e raspante, e meus joelhos salientes sentiram o peso do corpo e frearam minha corrida diária. O esquerdo sangrou e, por mais de uma semana, segue indignado mostrando seu descontentamento com meus pés e meus olhos que não prestaram atenção à irregularidade do chão.

Por dois dias fiquei com dó de mim e não corri, imaginando modestamente, por que coisas ruins acontecem às pessoas boas? Pensei que meu joelho poderia gangrenar, inflamar, ”pretiar”, paralisar. Bizarrices e exageros à parte, concluí que se o ferimento já estava doendo, nenhuma outra dor seria sentida. Então no terceiro dia, renasci das cinzas, deixei a "coitadinha de mim" de lado, fui mais forte que a dor e voltei aos meus treinos.

O ferimento era visível e curativos desajeitados foram feitos por mim nos primeiros dias. Mesmo não querendo chamar atenção para ele, o danado-ferimento-repulsivo teimava em se mostrar. Segui sugestões para que o deixasse livre “para respirar” e que assim a cicatrização seria mais rápida. “Deixe que eu respire por nós dois” – pensei – e não fui ao meu ortopedista porque vai que ele me pergunte se estou correndo de mim mesma? Ou então me dê uma bronca, igual quando criança apronta arte?

Percebo que um simples tombo e uma brecada nas corridas da vida, levou-me à reflexões mais profundas quanto as fragilidades humanas que não gostamos que sejam salientadas.

Não queremos, mas se elas existirem, que sejam só nossas as dores dos machucados, dos defeitos e das doenças - afinal, a quem mais deveriam interessar? E que o choro da incapacidade, mesmo que momentânea, não seja ouvido por alguém. Enganamo-nos pensando que, ser e estar forte deve ser uma constante na vida. Ninguém gosta, nem eu, de olhar os ferimentos sangrando ou amarelados pela futura cicatrização. Melhor tapá-los, afinal, o coração não sente tanto se os olhos também se taparem.

Queremos que nossos próximos sejam pessoas felizes e sadias. Buscamos os melhores pares, as melhores amizades, as melhores conversas; e sonhamos com desenhos reais em que as pinturas sejam criações exatas de nossa - “pseudo” - perfeição.

Impossibilitados de viver as realidades visíveis, doídas e comuns, vamos disfarçando os olhares ao feio, fingindo aceitar os inevitáveis tropeços impostos pelo chão esburacado desta vida que chamamos de nossa, esta vida que também nos é tirada velozmente. E quando isso acontece, deve mesmo ser sentida – a morte - apenas no pequeno espaço entre o tropeço e a chegada ao chão.

 

(*) Jovimari Balotin é empresária em Foz do Iguaçu, Pr.

____________________________________________________

Índice de Tirando de Letra

Voltar à página principal

 

 

 

 

 

 

APOIO CULTURAL:


 

 
 
Copyright ©2006 - 2006 - 2009 guata.com.br - Todos os direitos são reservados.