As respostas instantâneas na internet tiram toda a poética expectativa de dar um pulo sem preguiça da cama para vasculhar a caixa de correios, de aproximar o papel do rosto para sentir o cheiro, mesmo que o cheiro da tinta.
Não posso mais passar o dedo por cima do sulco que suas letras fizeram na folha e sentir-te escrevendo em mim. Pensando bem, as cartas de papel chegam a ser vulgares. Ninguém vasculha o e-mail outra vez pra ver se ficou um anexo sem baixar, o computador nos previne demais. As cartas nos vaziam investigar por um pouco mais.
Eu ficava na janela olhando o envelope, o selo, a data da postagem e se tinha algum fio de cabelo preso na cola das bordas. Ainda estão amontoados na gaveta todos envelopes recebidos, com seus selos e respectivos fios de cabelos. Acho que é o seu único fio de cabelo negro ainda acessível.
Aliás, para onde vão os cabelos que perdemos? Até onde sei eles não se degradam facilmente. Talvez estejam embolando por aí, reencontrando velhos pares. E quem sabe os fios loiros do garoto da 5ª C estão beijando meus cachos perdidos por aí?
Mania estranha essa minha. Já não releio suas rimas faz um tempo. Nem lembro do que se tratavam aquelas cartas. Eram notícias? Contos? Poesias? Cartas de amor? Não sinto a menor vontade de reabrí-las e ler. Mas sempre de encontrar pequenos pedacinhos de papéis soltos das bordas das folhas, uma linha, um cílio que seja.
Essa sobra de tecnologia me faz faltar tanta coisa. Tanta..
(*) Lílian Alcântaraé estudante de Engenharia Civil de Infraestrutura na Unila, em Foz do Iguaçu, Pr.