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OPINIÃO

 

Vida longa à informação

WikiLeaks mostra como rasgar a camisa de força da censura

(*) Célia Musilli

 

Tempo de Natal. Eu deveria falar de Papai Noel, das renas e tocar Noite Feliz por aqui. Mas com este caso do site WikiLeaks  revigorando a questão da ética no lodoso terreno da informação e da contra-informação, hoje não posso falar de Papai Noel nem de flores. É que sinto uma coceira na consciência quando não toco em assuntos que considero importantes, para não falar num comichão que me levou  instantaneamente a digitar WikiLeaks quando me sentei para escrever.

Sou jornalista e sei que, oportunamente, cronistas viram articulistas quando observam algum incêndio que não desejam apagar, mas sim levantar as chamas para que sejam vistas em qualquer lugar do planeta. Eis a questão, quero ver o circo pegar fogo esta semana. É que o site WikiLeaks confrontou as ações de países poderosos com a opinião pública quando começou a veicular informações secretas  que causaram pânico  nos “mocinhos do bem”,  que torturam e matam em nome da democracia.

Pois é, o site – criado em 2006 - tem como fundador um australiano de 22 anos, chamado Julian Assange, e foi responsável, recentemente, pelo vazamento de cerca de 77 mil documentos secretos sobre a guerra do Iraque e 250 mil documentos sobre assuntos diversos do Departamento de Estado dos EUA. Mais, seus fundadores e colaboradores afirmaram esta semana que isto corresponde a apenas 1% de tudo o que eles têm nas mãos e podem deixar vazar, expondo as vísceras das negociações e negociatas entre as nações.  Os documentos revelam, entre outras coisas, as ações de tortura dos “mocinhos do bem” no Iraque e toda sorte de informação capaz de jogar, digamos, “flores no ventilador” das relações diplomáticas.

As ações do site provocam escândalo, ameaças, pânico, além de uhs e ahs ao redor do planeta e claro que o fundador do WikiLeaks começou a ser chamado de terrorista cibernético, além de passar a ser caçado pela Interpol sob a acusação de estupro e assédio sexual. Acusação que ele desmente, afirmando que tudo não passa de perseguição política, o que tende ao óbvio.

Além das falcatruas, blefes e falta de respeito humano que escorrem das relações dos EUA e dos países ricos com o resto do mundo, o site tem à disposição informações sobre os países de segunda e terceira classes. Entre elas, documentos confidenciais sobre o Brasil, dando conta de assuntos importantes como a Lei do Abate e o uso do espaço aéreo, o último apagão, os bastidores das eleições presidenciais, etc. Tudo embalado para presente neste Natal.

O fato é que as novas tecnologias revolucionam o acesso às informações ditas “secretas”, um bom hacker pode mandar as criptografias às favas e, em pouco tempo, inundar o mundo de notícias capazes de deixar qualquer governo de cabelo em pé. Como estas informações afetam a todos nós, nada mais justo do que virem a público.

Na contemporaneidade, a tendência é caírem os filtros colocados há séculos como camisas de força na opinião pública. Caindo os filtros, caem também as máscaras dos governos bonzinhos e “democráticos.” O que me indigna é o cinismo de quererem  censurar o acesso a coisas que nos afetam profundamente.  O que deveria causar constrangimento não é o vazamento de informações de cunho secreto que o WikiLeaks traz a público, mas sim os conteúdos que dão conta, por exemplo, de torturadores a serviço dos (des)governos ditos do “bem.” Mas  ninguém fala em punir torturadores nem os Estados que os financiam, querem punir o site.

Graças a Deus, os heróis de ontem não são mais os heróis de hoje.  Na era virtual, quem diria, mentira tem perna curta e a censura está morrendo de velha. Vida longa ao WikiLeaks, que tem entre seus colaboradores jornalistas de todo o mundo. E, na semana que vem, prometo falar de Papai Noel, que a gente acredita que seja um bom velhinho enquanto alguém não “hackear” sua história.

(*) Célia Musilli é jornalista em Jaú, SP. Texto publicado originalmente no jornal "Folha de Londrina" e reproduzido do blog Sensível Desafio, da autora.

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