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CRÔNICA

 

 

A furadeira

(*) Vanessa Campos Rocha

 

O novo-macho-moderno é a super maravilha de todos os tempos. Nunca me senti tão a vontade para conversar de sentimentos, para cozinhar junto ou ainda dar e receber conselhos de moda. É como se a gente passasse quase que repentinamente a namorar a melhor amiga, com mais aquelas vantagens que elas não tem!

As diferenças, hoje, quase que foram substituídas por longas listas de divisões. A cerveja preta é dele, a cachaça é minha. O pôquer de quinta é nosso, a calça saruel ainda é minha, mas só por causa do tamanho. E tudo assim, amigavelmente.

E quando vem uma diferença, daquelas que é brutal e pré-histórica, ou arremata de vez a união ou joga tudo pelos ares. De tão forte e inusitado que virou o hábito passado. Comigo veio o golpe duro e fatal da furadeira.

Eu distraída carregando o quadro pela casa e berrando qual era o melhor lugar e ele saindo de dentro do quartinho de ferramenta, carregando a máquina como se fosse o rei dos instrumentos. E vem andando na minha direção. E olha o lugar apontado. E mira. E fura a parede. Limpa o suor do rosto. Martela a bucha. Roda o parafuso. E prega o quadro! Óooooo!!

Então era disso que falava a minha mãe? Fora as reclamações mil, de sobrecarga, responsabilidade total com os filhos, dificuldade de ter vida social independente e aporrinhações por causa do trabalho, também tinha isso?

Um gesto desses merece ir para o museu! E cada vez que a mulherada, ou qualquer um que adore uma cena máscula dessa, tivesse deprimido, pudesse pagar a entrada, sentar-se em um delicioso sofazinho e apreciar a cena. Relíquia!

Minha expressão era de contentamento abafado, de um prazerzinho quase que inominável. Parecido com a cara dele quando eu faço um jantar sem confabular sobre nada. E depois levo o cafezinho. Assim, como quem não quer nada.

Ô meu amor. Façamos um trato. Para ser um casalzinho realmente moderno a gente bem que podia intercalar com essas coisas à moda antiga, hein? O que acha? A gente continua dividindo as despesas, o carro, as cervejas, mas vez em quando a gente brinca de machezas e feminezas. Pode ser?

Eu estendo na cama a roupa que você deve usar naquele dia e você troca as lâmpadas de casa. Eu corto as unhas do seu pé e você corta a grama. Hum? Uma veizinha por mês? Já vai dar uma apimentada na relação, não vai não?

 

(*) Vanessa Campos Rocha é psicóloga, escritora e roteirista de cinema em Taubaté, SP. A crônica foi publicada originalmente na coluna da autora no jornal O Vale.

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