CRÔNICA
A Guerra entre nós
(*) Marianna Camargo
O excelente documentário de João Moreira Salles e Kátia Lund, “Notícias de uma guerra particular”, foi produzido entre 1997 e 1998 no Rio de Janeiro. Os diretores entrevistaram um capitão do Bope, moradores do Morro da Dona Marta, alguns integrantes da facção Comando Vermelho e os traficantes , inclusive os menores de idade, que relatam com precisão e tranquilidade como fazem para queimar corpos. Fala que se repete no capitão, quando conta sobre matar um por dia e voltar para casa normalmente. “Ponho a cabeça no travesseiro e durmo, não vou dizer que não”, diz o policial com a sensação de dever cumprido.
Dez anos se passaram. O filme Tropa de Elite fez sucesso. A continuação foi recorde de bilheteria. O sumo do roteiro é o que está no documentário. Acontece então o conflito entre traficantes e polícia no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, tão bem orquestrado que parecia a terceira parte do Tropa de Elite. Apenas a diferença fundamental: o filme era mais real, pois estava mais próximo do que se sabe que acontece. Por incrível que pareça a ficção mostrou melhor a realidade, se sobrepôs a ela.
Não sou especialista em nada, mas uma observadora. A “vitória” da polícia em cima dos traficantes é cena para inglês ver. Não termina algo que não tem fim, pois não tem fim quando é “lucrativo” para todas as partes.
Os traficantes e a polícia são uma ponte, o que está entre eles é algo muito maior, mais poderoso e imbatível. Quem ganha os milhões de dólares da venda das drogas? Os traficantes, a milícia, a polícia? Sabemos que não.
Pode ser que haja uma esperança na abertura dos documentos secretos do Wilkileaks, do que está sorrateiramente escondido debaixo do tapete. Fizeram o que a imprensa deve fazer. Ponto para eles.
Quanto a nós, espectadores dessa história da carochinha, resta saber por que o Brasil talvez seja o único país que promove uma guerra entre nós, particular, não contra outros.
Esse abismo diz muita coisa sobre o que somos. Talvez um dia, quando a ficção não se sobrepôr à realidade a vida tenha algum valor. Por enquanto, ela não vale nada.
(*) Marianna Camargo é jornalista em Curitiba, Pr.
Crônica publicada originalmente na revista Ideias e no blog TAKING MY GLOVES OFF, editado pela autora. |