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CRôNICA


A dança das coisas delicadas

(*) Célia Musilli

 

A melancolia é meu “defeito de fábrica.” Nasci assim, no limite. Então nestes finais de ano, de festas e passagens é inevitável que eu sinta a poeira fina que cai como orvalho sobre meus tantos sentimentos. Nesta época, há os que vivem a melancolia e os que vivem a euforia, ajudando a detonar a bomba interna da alegria passageira com aditivos que os colocam instantaneamente de bem com a vida.

Sinto-me um pouco deslocada por não ser a mais festiva das pessoas e sentir tédio em reuniões sociais. Este detalhe espanta os ouvintes a cada vez que confesso não querer o que quase todos querem. Meu desejo, nestes dias, é apenas aumentar a própria sintonia com o íntimo das coisas, naqueles sossegos silenciosos, naqueles pedacinhos do Ser que nos revelam a poesia e a festa da Existência de outro modo. Desejaria talvez, compartilhar o pôr-do-sol ou as estrelas de um tempo mutante com quem se deslumbrasse com a mesma Beleza, esta que nos tira as palavras pelo encantamento. Esta que nos leva instantaneamente a outra dimensão de mundos mais delicados e propícios ao canto de passarinhos, músicas da chuva e à contemplação dos universos íntimos.

Os familiares e os amigos nos chamam em outras direções. Ao clichê dos champanhes, das ceias fartas, dos rojões barulhentos e , às vezes, sem lágrimas. Não me nego à vida corriqueira, seria também uma tola se não espiasse a vida como ela é, ainda que o faça com o cantinho do olho e querendo seu avesso. Porque no avesso, aí sim, vejo melhor a trama do bordado, meu pêndulo interno a contar as horas, dias e anos de desejo de uma intimidade maior com o universo do qual sou transeunte.

Talvez eu não queira as rodinhas, mas a Grande Roda que me conecte a vivências cósmicas como a da borboleta que tatuei no pulso, ao trabalho das formigas, à paciência das flores. Não, não procuro o grande Deus, mas os pequenos, por isso me afastei das religiões e extingui as possibilidades de participar de grupos que cantam a Aleluia sem alma. Então, é solitária a vida de quem não se associa por descrença ou sacadas metafísicas que excluem o dejà vu dos “pagodes de luz!”

Assim como é solitária a vida de quem não quer aditivos para fabricar a alegria, mas deseja o desvario natural de uma mente aberta e sensível como o movimento das estrelas em noites de Ano Novo. Ao mesmo tempo, cai sobre mim o orvalho desta melancolia que me faz mais humana, mais gente, com todos os nervos e carnes expostas, sentindo que é tão bonito e tão difícil saber dança das coisas delicadas.



(*) Célia Musilli é jornalista e poeta em Jaú, SP.

 

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