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CRÔNICA


Hoje não. Amanhã.

(*) Izabel Campana


Há quem diga que Dom João VI foi um grande procrastinador. Deixava tudo para depois. Inclusive a decisão de sair de Portugal em direção ao Brasil. Em nosso favor, anos mais tarde também adiou o quanto pôde o retorno à pátria lusa.

Dizem ainda que foi essa característica que acabou por fazer dele o único monarca europeu a enganar Napoleão. Não decidir se aderia ao bloqueio continental contra a Inglaterra o salvou de ter Portugal invadido e seu trono tomado antes que pudesse escapar em direção aos trópicos.

Conselho semelhante recebi um dia, ainda pequena, de Jamil Snege. O turco defendia que, diante de um problema, o melhor a fazer era esperar que ele se resolvesse por si só. Nada de angústia. Apenas aguardar até que a solução desse o ar de sua graça.

Não se tratava da ideia presente no velho ditado: “O que não tem remédio, remediado está“. Não. O conselho consistia em aguardar o remédio, que viria naturalmente, ou pelas mãos de outrem, sem necessidade de esforço e sem o risco de agravar ainda mais uma situação fora do controle.

Não sei sobre a validade do conselho. Mas penso que procrastinar é umas daquelas coisas inerentes ao ser humano. Não há quem não deixe para depois um trabalho, ou invente outras tantas urgências para não dar conta de uma simples tarefa.

Há sentimentos que parecem fazer do homem, homem. Amor, ódio, inveja, solidão. Experiências que fazem parte da grande experiência de ser gente. E essa relação complicada com o tempo parece ser uma delas.

Outro ditado famoso diz que o tempo passa quando estamos nos divertindo. Mas ele passa ainda mais rápido quando estamos procrastinando. E isso nem sempre significa diversão ao invés de obrigação. Boa parte de adiar uma tarefa é envolver-se em outra tão enfadonha quanto a primeira. Exceto pelo fato de não ser a primeira.

Outras vezes, culpar-nos por não dar cabo de um compromisso é a principal coisa que fazemos enquanto adiamos o dito cujo. Talvez tenha sido em momento assim que Fernando Pessoa escreveu “Adiamento“. Uma ode ao depois de amanhã que congrega todos os sentimentos de deixar o dever de lado.

Mas Pessoa não foi o único procrastinador famoso. Mark Twain proclamou a célebre frase: “Não deixe para amanhã o que você pode fazer depois de amanhã”. Lord Byron, por sua vez, conclamou todos à procrastinação. “Vamos ao vinho, às mulheres, à mirta e aos risos; sermões e soda, deixemos para amanhã”.

Adiar parece mesmo ser universal. Procrastinar é palavra de origem latina. Mas os gregos também adiavam e chamavam isso de akrasia, que significa fazer algo mesmo sabendo de sua contra-indicação. Sócrates acreditava que a ignorância tinha de estar por trás do comportamento de ir contra seus próprios interesses.

O exemplo de Guimarães Rosa, porém, desmente o filósofo. Rosa adiava sua posse na ABL por achar que quando isso acontecesse, o ciclo de sua vida estaria completo e ele então morreria. Pressionado para tomar posse, assumiu o posto de imortal. Morreu uma semana depois.

O conselho do Jamil em prol do adiamento parece carregar muita sabedoria, afinal.

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(*) Izabel Campana é advogada em Brasília, DF. A crônica acima foi publicada originalmente na revista Ideias.


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