ENSASIO
Breves Palavras sobre a diferença
entre narrar e contar histórias
O contador de histórias
(*) Luiz Carlos Felipe
O contador de histórias sentia orgulho de sua linhagem, de seu repertório e do nível de sabedoria de suas histórias, pois estas eram usadas como indicadoras do presente, registros do passado e faziam alusões às coisas do mundo dos sentidos, bem como às do mundo além das aparências. (SHAH. In: MACHADO, 2004)
O escritor usa a escrita que possui um status mais fixo e imutável. O instrumento do contador é a voz falada, auxiliada pelo gesto e a expressão facial. Farei uma breve digressão bíblica envolvendo o uso da escrita e da fala. Lembremos da passagem em que Deus não apenas dita seus Dez Mandamentos, a voz parece não ser suficiente, Ele escolhe a solidez da pedra para gravá-los, enfatizando assim o desejo de permanência de sua Lei.
Lemos em Êxodo (24, 12-13) “O Deus Eterno disse a Moisés: __ Suba o monte onde eu estou e fique aqui, pois eu vou lhe dar as placas de pedra que têm as leis e os mandamentos que escrevi, a fim de que você ensine ao povo”. Avançando um pouco mais na analogia bíblica, no Novo Testamento encontramos um Jesus Cristo cujo método favorito para ensinar era a narrativa de parábolas, histórias curtas, compostas de material cotidiano e com um ou dois personagens; o objetivo era transmitir uma idéia traçando um paralelo familiar, mas inesperado. A princípio, a parábola é intrigante ou perturbadora e, por isso, suscita a atenção e convida a explicações adicionais. Cristo não escreve uma única palavra. Por quê? Ele próprio é a palavra.
O escritor pode (já que se encontra distante de seu público leitor) fazer e refazer seus rascunhos, emitir idéias ofensivas contra a cidade ou líderes populares. O contador precisa reagir a uma audiência imediata, mantendo-se dentro de certos limites, sem comentários irônicos ou que possam ser mal interpretados. O contador de histórias pode improvisar, pode enfeitar e acrescentar detalhes, mas não pode revisar o início de sua contação: sua história se desenrola apenas em um sentido, não se pode virar a página e alterar tudo, desfazer uma injustiça ou apaziguar um comentário inadequado.
Uma história transmitida oralmente não morre com o seu contador: muitas dessas histórias continuam vivas há milhares de anos, viajando de um lugar a outro, de um século a outro, sendo traduzida ou adaptada. O que morre é o modo particular de alguém narrar aquela história. A história muda,portanto, de contador para contador. Passa não de mão em mão, mas de boca a ouvido e de ouvido à boca, mantendo seu secular movimento. O conto escrito pode sobreviver à morte de seu autor, também viaja e o que muda é o modo daquela geração de leitores lerem aquela obra. Em torno da escrita e do livro há uma ilusão de permanência. Pois, infelizmente, os textos podem ser queimados e perdidos para sempre. Sobre isso, fica uma sugestão de leitura : a obra de Ray Bradbury, “Fahrenheit 451”, nela os bombeiros usarão o fogo para queimar livros e leitores em um mundo em que ler é proibido, de modo que a saída para os apaixonados pela leitura é decorar suas histórias preferidas e escondidos pelos bosques contá-las e recontá-las aos poucos interessados. Bela, porém, distópica imagem da permanência dos contadores de histórias ...
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(*) Luiz Carlos Felipe é contador de histórias e professor da Faculdade Cenecista de Campo Largo (FACECLA) e da Faculdade de Campina Grande do Sul (FACSUL).
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