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CRÔNICA


Os tsunamis em nossas vidas

(*) Célia Musilli


Li que pesquisadores encontraram Atlândida. A cidade lendária, afundada por um tsunami, estaria localizada ao sul da Espanha. Isto me levou a pensar nos tsunamis que acontecem em nossas vidas, os micros, não os macros, como este que agora devastou o Japão gerando um luto coletivo, uma tristeza global que nos dá a sensação completa de impotência. 

Todos nós, ao longo da vida, passamos por tsunamis particulares, quando pessoas queridas desaparecem e os lugares onde elas viveram ficam vazios, num silêncio que reclama corpos, movimentos, hábitos. Lembro quando perdi minha mãe e a casa não era só vazio, era um vácuo, como se até os móveis sentissem saudades. Ficamos estáticos, ninguém mexia na sua cama, nem nos seus vestidos que pareciam a eternidade no guarda-roupa. Mexer em lembranças é mexer na saudade e, no entanto, é necessário tirar os “arquivos” da vista, pelo menos por um tempo.

Quando as casas ficam vazias e sobra nelas só a memória dos ex-habitantes, devemos abrir as janelas e ver que a vida continua, com sua passagem de nuvens, de carros, de pessoas e de crianças que nascem. Morte e vida são as faces da mesma moeda, viramos para um lado e rimos, viramos para outro e choramos, como barqueiros obrigados a sempre subir e descer o rio. Não há viagem só de ida nem só de volta.

Até na morte há beleza e lembranças singelas. Do meu pai, guardo o barulho dos chinelos quando ele atravessava o corredor nas noites insones, seus caminhos  terminaram, mas seus passos criaram uma onomatopeia na minha memória. Da minha mãe guardo o cheiro da última refeição que preparou num dia frio, quando cozinhou de portas fechadas, acendendo o forno como quem deixa a chama do afeto perene. São assim as memórias das pessoas queridas: passos, gestos, uma presença simbólica. 

Esta semana vi na TV a reportagem sobre uma moça japonesa que voltou à cidade dos seus pais depois da tragédia, vi sua dor quando não encontrou mais nada. A “casa” era um vazio sem objetos afetivos, sem vestígios do telhado, uma solidão de areia, madeira e árvores retorcidas. O tsunami que devastou sua vida não deixou intacto nenhum cenário, nenhum chinelo, nenhum fogão, mas sobra a chama, a memória não sujeita à devastação.

Das tragédias às vezes sobram objetos reunidos em museus. Foi assim com os restos de Hiroshima, recolhidos num memorial de ferros retorcidos, bicicletas que nunca mais rodaram, tufos de cabelo e fotografias, muitas fotografias de um dos maiores horrores praticados pela humanidade. Desta vez a humanidade não tem culpa, os tsunamis são fenômenos naturais como a brisa, mas o “outro lado da moeda” equivaleu à força destruidora de 27 bombas de Hiroshima.

Fico pensando no Japão da destruição e da reconstrução, na fibra de um povo marcado por tragédias que me fazem até supor um carma, uma tendência ao luto coletivo, às perdas gigantes, a dor que expõe a alma da nação. Mas acredito na reconstrução de um país que tem o dom de colar os cacos, quando se parte a porcelana do seu coração grandioso. Os japoneses aliam a tenacidade e a delicadeza, a perda e o trabalho, o pesadelo e o sonho. 

Diante das tragédias fico envergonhada das minhas pequenas perdas, de nutrir por elas um sentimento de inconformismo porque há no mundo situações inconsoláveis. Me envergonho por me sentir inconformada quando perco coisas simples: um anel, um vestido, alguns amores. Pequenas Atlândidas que julgo desaparecidas para sempre. Isso não é nada para quem perde pais e filhos de uma vez, perde casas, cidades e paisagens. Restam os arquivos indeléveis da memória, último reduto dos passos dos que já se foram, mas quero acreditar que um dia reencontraremos nossas Atlândidas.

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(*) Célia Musilli é jornalista e escritora em Jaú, SP. A crônica acima foi extraída do blgo da autora. Clique aqui para visitar.


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