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CONTO


 


Em Brasília, 19 horas!

* Fabiula Wurmeister

 

Em Brasília, 19 horas!” Por muito tempo – e até hoje – esse era o comando para que tudo e todos parassem. Essa era a hora em que o rádio de fabricação nacional e de marca subsidiada reinava absoluto, personificando em suas formas lineares e aparadas e no seu som modulado a onipresença do comandante de discurso certeiro.

Esse era o comando para “aquele jovem sem nome” também se entregar às ordens que o tirava da sua inércia, efeito contrário ao que surtia sobre os demais. Sem que percebessem, saía religiosamente não se sabe para onde. Era a melhor hora do dia. Como para o comandante, aquela era a sua hora, a hora em que ganhava voz.

Todos os dias, sempre às 19 horas, era assim. Enquanto quase todos se inebriavam com aquela ideologia que há muito esperavam fosse encabeçada por alguém que certamente transformariam em líder, “aquele jovem sem nome” brincava de ser ele o comandante. Se durante a maior parte do dia, via tudo sem ser visto, ao cair da noite se apropriava de todos os nomes.

Assim, os dias, semanas, meses e anos foram passando. O medo de que o que estava dando tão certo pudesse mudar não deixava que ousassem nem mesmo cogitar qualquer alteração da rotina. Zumbis da própria sorte, alimentavam-se diariamente daquela voz milimetricamente ritmada que, ao mesmo tempo em que impunha medo e respeito, emanava a sensação de se fazer parte.

Dada noite, sem que aparentemente ninguém notasse, “aquele jovem sem nome” descumpriu a sua rotina. Ao fundo, o eco radiofônico. Nenhuma porta se abrindo e fechando, nada dos passos rápidos e abafados. A sombra delatora não o acompanhou naquela noite e nem em várias outras. Será que ele teria ao menos voltado para casa no dia anterior? Não.

“Aquele jovem sem nome” tinha sido devorado pela decepção de ver a sua obra destruída. Como tabelião de um cartório de registros, anotou todos, os de batismo, os de casado, os artísticos, os pseudônimos e inclusive os menos honrosos mas mais usados, os apelidos. Sem querer, ao alterar os registros criou uma espécie de “livro da vida” daquela massa de pessoas.

Apesar de não acreditar e de não se amedrontar com a assustadora onipresença do comandante, estava sendo observado. As anotações, as observações, o registro de várias vidas que juntas pareciam apenas uma, sem forma, sem personalidade e sem nome não poderiam ser conhecidas por ninguém. Pessoas com nome são confiantes, fortes, uma ameaça latente ao poder aniquilante.

Longe de qualquer problema para o comando, a cidade sem nome, de pessoas sem nome e “daquele jovem sem nome” era agora mais uma cidade sem história e sem reação. Ao mesmo tempo, outros “tabeliões” começam a dar voz àqueles velhos arquivos e sem que se perceba, a qualquer hora do dia, alardeiam as novas notícias em freqüências ainda sintonizadas por poucos.

 

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(*) Fabiula Wurmeister é jornalista em Foz do Iguaçu, Pr.. O texto acima foi publicado originalmente na revista Escrita, 16.

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