CRÔNICA
Uma vez em Iguazú
(*) Silvio Campana
Akemi, Sol e Inti. Três nomes me chamaram a atenção entre tantas gentilezas, identidades, sons e passos diferentes na tarde/noite de Iguazú, durante o Café e Mate, que ocupou com arte uma praça e me ocupou de pensamentos a cabeça.
Duas mulheres e um menino. Três nomes aproximados em línguas diferentes. Três sotaques diferentes, três linguagens distintas. Naquele arredondado de gente e miçangas e poemas e astronomia e circo e tintas e música, essas três pessoas, das quase 700 que passaram por lá, me fizeram escrever estas poucas linhas em devaneio.
Primeiro, uma mulher brasileira. Seus olhos puxados, um sorriso fácil, seu rigor nas contas do que ver e adquirir e uma beleza contida. Sim, e um sotaque baiano saindo como luz no sorriso oriental. Um sol, a lua e a caligrafia japonesa para explicar Akemi num ideograma que traduz alegria e felicidade. Seu olhar atento, sua visão jornalística, sua emoção organizada em pequenos suspiros e caminhar discreto. Akemi e seu passeio brasileiro na terra argentina, logo depois do rio, reconhecendo novos amigos.
Depois, Sol. Expressão andina de como viver bem mais ao sul. A pele queimada pelo frio da Patagônia enrolada em panôs de algodão e seda. O cabelo preto, os olhos pretos, a vista baixa mas vigilante, talvez escolhida para uma aproximação. E, sim, uma surpresa no coração para contar em poucas horas antes de retomar seu rumo em viagem até o Brasil. Desceu turista até a pequena praça para ver o que acontecia naquela cidade. Puerto Iguazu até então era apenas ponto de transição de seu mapa. Encostada na banquinha de livros, folheava com os olhos literatura e arte. Convidada a tocar naqueles registros autorais, abraçou-me e contou de seus antepassados escritores, sua percepção mística da vida, das coincidências que a teriam trazidas até ali. Uma calma, uma voz paciente, a amizade entre os pés e as mãos de quem procura o mundo para compreender a si mesmo e depois daí se fez saudade.
E então, entre nós todos, Inti. Um menino de seis anos e seu cão. Um menino de seis anos e sua bola de futebol, argentino, claro. Um menino de seis anos e sua vontade de colorir o mundo e de comer empanadas. Um sol que chegou naquela praça e se pôs a procurar mais crianças para brincar como sempre o faz aos domingos. Inti e sua vida naquela tarde a apenas rodar entre a arte e o que queríamos dizer uns aos outros. E acho que ele e sua aventura eram a própria certeza de que, anfitriões ou visitantes, já nos festejávamos e nos entendíamos.
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(*) Silvio Campana é jornalista, editor da revista Escrita em Foz do Iguaçu, Pr.
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