CRÔNICA
Murmúrios in trilhas do fogo
(*) Marco Fabiani
"Você é quem diz que a vida flui. Como um remanso, desliza suave. Não flui, digo eu. Vida não flui, enrosca. Vida mesmo, corcoveia, empaca. Faz que vai, volta. Prepara armadilha, espreita. E quando se passa, seguro e certo, sem esperar, e aí? Aí aparece o canguçu traiçoeiro, rosnando, se transformando em serpente e te ataca. Se enrosca e te beija com língua de brasa. Instila o fel do fracasso. Acha que tudo anda no comando da tua rédea? Acha que vida é cavalo domado, obediente, que sente teu mando? Ah! Não vem com essa. Na primeira curva, salta as pedras e te carrega no lombo para onde ela quer.
Você, com tua boquinha sagrada, essa voz de passarinho, é que diz que na vida há um doce, espalhado no vento, colhido da flor. Te falo com franqueza: Vai se acostumando com o amargo, porque esse é o gosto do dia a dia. Pode ser que um diazinho ou outro vem lá um docinho. Mas não espere. A gente olha e vê alegria pululando na casa. Criança brincando, cachorro correndo, movimento dos vivos de corpo e de alma. Quando menos se espera e num repente assim sem que se explique e aparece o bafo da morte, preto, grosso, entrando sorrateiro e espalhando que nem fumaça e leva o que você mais quer. Aquilo que você um dia dizia: "Não fico sem". É o que ela tira e leva. Não tem um macio, que você pode encostar o corpo e deixar o cansaço ir embora e depois de um tempo levantar pronto para tudo. A vida te faz correr nas pedras com bolhas nos pés e não adianta queixa. Aceita a dor e enfrenta".
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(*) Marco Fabiani é médico cardiologista em Londrina, Pr. O texto acima foi publicado originalmente no blog do autor. Clique aqui para conhecer.
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