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CONTO

 

A natureza do raio in trilhas do fogo


(*) Marcos Fabiani


Numa velocidade incrível, o objeto triscou o céu e caiu logo ali, inanimado e fumegante, sem qualquer brilho. "Foi um raio que falhou", explicou o velhinho ao outro que se encontrava ao seu lado.

- Como assim?

- Como um rojão. Falhou. Deu chabu.

- Isso é que não! A natureza nunca falha!

-Ah!Como você é ingênuo! E como falha, homem de Deus! Olha o meu nariz!

De fato. Um gancho. A natureza, às vezes, falha miseravelmente.

Logo atrás, vinha uma senhora; provavelmente professora, pelo modo explicadinho como pronunciava as palavras, disse. (Quase gritou)

-Chamem o IOE. O IOE! Era o Instituto de Identificação de Objetos Estranhos.

- Já chamamos três vezes. Alguém disse.

-Eles não vêem?

-Não. Disseram que na quarta vez chamam a polícia.

-???

-Quando falamos que era raio falhado, ninguém acreditou.

-É razoável, falou a suposta professora. Mas se a gente insistisse...

-Não adianta. Eles estão sem gasolina.

-Nossa! Mas com tanta tecnologia, eles ficam sem gasolina? Tão básico...

-Bom. Se a própria natureza falha, né!? Disse, convicto, o narigudo.

Agora já se aglutinava em torno do - vamos chamá-lo assim : raio - uma pequena multidão. Um homem baixinho, de barba espessa, ares de sabe–tudo, como que surgiu por ali. Aproximou-se e tascou: "Raio não é !!". Deu mais um passinho à frente. Inclinou-se como um perito. Foi taxativo: "É estrela". O murmúrio das pessoas tornou-se mudez.

Assim que a notícia espalhou, rapidamente acorreu ali todo tipo de curioso. O colégio em frente dispensou as aulas. Os desocupados, os ocupados; mas nem tanto, funcionários, bebuns, e eles. É. Eles, os repórteres. Em busca do que se chama verdade jornalística. Enquanto um fotografava, outro entrevistava todo mundo. " Como você se sentiu quando viu o objeto ?". "Muito feliz e comovida", disse a mocinha do colégio. "O mundo ia acabar", disse a senhora de preto, que aliás não tinha visto nada. O pipoqueiro, que tinha se aproximado e já havia vendido todo o estoque de pipoca, revelou-se muito desconfiado. Falou convicto ao jornalista, que escrevia como se estivesse psicografando. " É coisa de Americano!"- sem explicar exatamente o que era tal coisa. Desconfiava dos americanos, desde quando viu pela TV os astronautas pisando pela primeira vez o solo lunar. Sempre achou aquilo algum tipo de engodo. "A lua é de queijo" dizia.

O jornalista, experiente, percebeu a divergência central que tomava conta das ruas. Imediatamente começou a seguinte pesquisa, a ser tabulada em seguida -É raio ou é estrela?. Ao fim de tantas perguntas, ficou mais ou menos assim. Sessenta e três por cento acham que é raio, e os trinta e sete restantes juram que é estrela. Na capa do jornal sairia no dia seguinte em letras enormes "Raio falhou e caiu na praça". O povo assim o quis!!!

Mas a novidade do assunto foi aos poucos envelhecendo. Uns retornaram às suas casa, outros pararam num boteco ali por perto e, assim, a calmaria costumeira voltou à praça. Já era fim de tarde e só restava, agora frio e carbonizado, o raio. Triste destino, o dele. Não teve a chance do brilho intenso - fugaz é verdade-, riscando os céus, numa demonstração fascinante e terrível das forças da natureza. Não apareceria ocupando pagina de revista fotográfica. Nessas fotos que ganham concursos.Esse não, pobrezinho. Natimorto, sem conhecer o esplendor, caiu ali, sem glórias, apagado. Não recebeu dos humanos, nem a admiração, nem o temor. Só uma curiosidade passageira.

Às vezes, a natureza falha miseravelmente.

 

 

(*) Marcos Fabiani é médico em Londrina, Pr.
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