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CONTO

 

Vida besta

(*) Izabel Campana

 

Despertou com uma sensação estranha. Tudo no mundo parecia artificial. De repente, estava ali, naquele falso cenário, sem razão de ser.Olha por onde passa. Pessoas caminham com cachorros e crianças pelas ruas, às compras de legumes e verduras, às idas ao banco e ao trabalho. Outros vêm e vão em carros, a pensar na vida, a ouvir música, a aguardar o verde dos semáforos. Ela ia também.

Ia ao mercado, ao banco, ao trabalho. Ia à casa, à vida, ao mundo. Ia todos os dias. Mas hoje ia como se não fosse. Como se não fosse ela. Ia como se flutuasse no espaço em corpo que um dia fora seu. E flutuava por entre cães, mulheres, crianças e motoristas como num sonho. Um sonho estranho e cotidiano.

E em meio a esse espetáculo da vida, com mulheres, crianças, motoristas e cães, sentiu-se tão só. Tão só como nunca esteve. Sentiu-se sem par. Postiça no cenário falso da vida. Agora via. Agora via que o mundo não passava de uma farsa. Que a vida nada mais era que o nada. E que tudo se resumia no tempo. Que a vida é o tempo entre a vida e a morte.

E o tempo? É uma mentira. O tempo é desumano e ingrato. E o tempo não existe. Todos os dias ao trabalho, à casa, ao banco, às compras, à vida. O tempo se esvai no dia a dia da mediocridade inventada e escapa pelas mãos.

De repente passaram por sua cabeça esses pensamentos novos, sobre a vida, a morte e o tempo. Por que ia ao trabalho? E à casa? Por que lavava a louça todos os dias num loop infinito como um rato de laboratório? Já não entendia mais nada.

Já não entendia a razão de ser dessa vida besta de idas e vindas e tempo perdido no trânsito. No trabalho, respondia a e-mails e mais e-mails todos os dias. Atendia a telefonemas, cobrava prazos e metas. Tudo isso por quê, para quê?
Mas não estava triste. Não. Sentia-se de certa forma livre das tensões das contas, dos prazos e das metas. Pois agora acreditava que nada disso significava qualquer coisa. Nem o trabalho, nem a louça, nem os e-mails por responder. Ia morrer. Ia morrer um dia sem saber para quê teria sido a vida. Sem saber seu papel nesse mundo do qual não mais parecia fazer parte. E descansou.

Apesar de todos esses sentimentos, não deixou nada por fazer. Voltou à casa e deu de comer ao cachorro. Ao fim do dia, após lavar os pratos do jantar, sentou para ver televisão. O telefone toca. É a amiga convidando a uma ida ao cinema. Lembrou de como riram da última vez. Foi ao quarto, calçou as sapatilhas vermelhas e saiu. Esqueceu os pensamentos estranhos. Era ela mesma de novo.

 

(*) Izabel Campana é advogada em Brasília , DF. O conto foi publicado originalmente na revista Ideias.

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