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REPORTAGEM


Copas de Leche

(*) Yuma Martellanz


Uma leve chuva acaricia Jujuy, coração do Norte argentino, desmanchando-se no fervor de risos. É o jorro de um rio que nasce e escorre do lugar na espera do próprio salário. Reencontro, depois de três anos, Milagros Sala, a líder daquele movimento. Os cabelos longos emolduram um rosto agora mais descontraído em “Mili’, que experimenta um chá mate junto com uma comissão de médicos, dentistas e professores.

Aliás, saúde e educação são grátis e obrigatórias para cada “companheiro” da organi-zaçao social Tupac Amaru, onde o indivíduo participa com uma taxa de 4 pesos por mês.

Antes de receber o próprio salário se é avaliado pelo dentista. Para Mili, é muito importante o sorriso dos companheiros. “Amor! Se falta todo o time na boca e ainda três exames para acabar a escola secundária, como vai fazer para conquistar uma mulher?”, ela ri, referindo-se a um velho Kolla.

A Flaca (como também é conhecida) é mãe e a sua total atenção abraça cada singular problema individual ou coletivo. Há resposta pronta para cada um e a solução é imediata. “Esse encontro aqui, é uma jornada importante porque você aproveita o momento de olhar para o outro, discutir e encontrar soluções de trabalho, familiares, de saude e comportamentais.

Milagros Sala é de nascimento Kolla (população originária do norte da Argentina), de Sao Salvador de Jujuy. Fechada nesta pequena mulher tem uma energia impetuosa, contagiosa e antiga, o tipo de energia que move as massas. Fundadora do maior movimento popular argentino com mais de setenta mil “compañeros” e mais de quatro mil, quinhentos e sessenta habitações construídas atè a primeira metade de 2011 (quase mil ao ano, só em Jujuy). Iniciou a sua luta na década neoliberal dos anos noventa, quando, com o ex-presidente Menem e a privatizaçao de quase todas as empresas estatais, de saúde e de educação, muitos argentinos se acharam desempregados, os hospitais sem remédios e crianças morreram desnutridas.

TRAJETÓRIA - A organizaçao social Tupac Amaru - que leva o nome do primeiro revolucionario creole, descendente direto de imperador Inca e que em 1871 lutou contra os colonizadores para a liberaçao dos povos de origem - amealhou este universo de filhos que restou nas ruas, refugiados nas “vilas miseráveis” dando-lhes a possibilidade de viver uma vida digna, enquanto “a pobreza é uma circunstância que pode-se mudar unicamente se o pobre nao se identifica com ela”. Para Mili, é necessário saber mudar o ponto de vista das coisas e recuperar a autoestima.

A luta contra a discriminação, neste caso, nao é argumento eleitoral mas experiência de vida vivida. Abandonada ao nascimento, cresceu embaixo das asas de uma família rica que lhe deu a possibilidade de estudar e se diplomar em danças folclóricas. Com 14 anos entendeu que as más línguas dos companheiros “diziam a verdade”: era a única negra em uma família de brancos. A mãe adotiva não lhe disse nunca a verdade. Não podendo perdoá-la, fugiu de casa procurando as próprias raízes.

Viveu saboreando o amargo do asfalto, trabalhou como engraxate na estação, oscilou entre mil expedientes. Depois começou a vender cocaína e roubar com um grupo de garotos do quarteirão. O ganho era dividido para comprar remédios para os pobres, em Azopardo. Capturada pela polícia, passou oito meses na cadeia onde se aproximou da experiência de auto-gestão. Com as outras mulheres organizou uma cozinha comunitária para uma refeição digna.

Quando saiu da prisão iniciou sua militância. Primeiro na ATE (Associação dos Trabalhadores do Estado) e depois na CTA (Central de Trabalhadores Argentina). Foi -preferida pelos movimentos sociais pelo conhecimento interno das favelas, inacessíveis aos externos. Foi assim que iniciou com as primeiras xícaras de leite, pois a ação mais urgente era alimentar as crianças.

ALIMENTO DA AÇÃO - A xícara de leite é ainda a base do funcionamento de toda engrenagem. Trata-se do desempenho e da colaboração de um voluntariado que se reúna para dar leite doce, chá mate e “empanadas” às crianças dos quarteirões degradados. E se as primeiras cinco crianças àquela manhã olhavam desconfiados àquele banquete colorido, hoje são milhares que se alegram a cada semana.

“Nestes momentos é que se consegue falar com as crianças”, me diz Nelida Rojas, braço direito de Mili. “São eles que te fazem conhecer os problemas familiares, assim voce sabe onde intervir e criar programas sociais. Dois anos atrás iniciamos com 160 que compartilhavam a nossa desolação e agora somos 5 mil que lutam; só na província de Mendonza temos construção em sete departamentos! Formando esta grande família pode-se manifestar e pedir terrenos, se não existe a solidariedade não funciona, sozinho não se pode fazer nada!”

Nelida tirou o avental de enfermeira depois de uma operação na coluna vertebral e para não sentir o frio do desemprego, escolheu o chapéu do revolucionário. Seu marido Ramon a seguiu e abandonaram a via que por 20 anos tinham marcado. Hoje ele é “chefe fabricante “da Tupac de Mendonça.

Como essa, são as histórias de muitos. Por isso ele dizem que “quando existe a vontade, existem muitas soluções. Quando nao existe vontade, existem muitas desculpas”. Dizem também que “Deus está em todos os lugares mas recebe em Buenos Aires. Quando em dois mil e três Kirchner estabeleceu trinta e cinco mil pesos para a formação das primeiras cooperativas de habitações na Argentina, toda essa gente à margem da sociedade, a maioria descendentes das populações de originárias e renegados na própria terra, levantaram finalmente a cabeça depois de quinhentos anos de perseguição e opressão física e mental. Neste terreno inclinado que agora chama-se “Alto Comedero”, os tupaqueros construíram com as próprias mãos as primeiras 200 habitações com a metade do dinheiro e do tempo previsto pelas empresas de construções.

Assim receberam a aprovação para outras 400 casas. Com o dinheiro economizado foram construídos fábricas de tecidos, centros de integração comunitária, escolas, fábricas de tijolos, luminárias e metalúrgica, um centro para reabilitação de pessoas com deficiências (um dos mais bem equipado do país), piscinas, parques de diversão e espaços comunitários para cozinhar, que são utilizados nos finais de semana por famílias que vêm de toda a província.

As casas são todas iguais, 54 m2, dois quartos, banheiro e cozinha. No teto, uma caixa d’agua com os lados do Che (que representa a disciplina e a transformaçao social), de Evita (protetora das crianças e idosos) e de Tupac Amaru.

IDENTIDADE - Não existe nenhum tipo de discriminação racial ou sexual, trabalha-se junto; as mulheres com capacetes na fábrica de tijolos e os homens costurando na de tecidos. Nas escolas os alunos são “companheiros” e além das matérias clássicas estudam Auto-estima, História do Movimento Operário e História dos Povos Indígenas. Afinal, como uma árvore sem as próprias raízes seca e morre, também é certo saber que a civilização não começou com a chegada de Colombo, como foi ensinado até agora em todas as escolas argentinas.

O que distingue um tupaquero é o orgulho, o amor indiscutível por quem os resgatou da estrada, da droga e da miséria, a disciplina e a fraternidade. As mulheres que entraram para morar nas casas, a cada mês juntam um ornamento, uma recordação, uma flor para embelezar as próprias casas, que de humildes habitações são agora tudo que os faz orgulhosos de serem quem são, felizmente combatentes e diferentes de tantos que na felicidade incontram um desvio. Quando, por exemplo, em Maipu uma casa acabou em chamas, os vizinhos chegaram antes dos bombeiros trazendo colchões, móveis e um dia depois do incêndio a nova casa era decorada e habitável.

PACHAMAMA - A cada início de agosto se comemora a “Pachamama” ou “Mãe Terra”. Em 2010, a Tupac Amaru organizou a “Marcha dos povos originários” a maior na história da Argentina com mais de 30 mil pessoas que chegaram em Buenos Aires vindas do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste.

Pela primeira vez se reuniram todos, os Toba, os Guarani, os Wichi, os Mapuche, os Huarpes, os Diaguitas, os Aymara, os Quichua, os Kolla…Vestindo roupas tradicionais e cantando as músicas dos antepassados se encontraram com a presidente Cristina Kirchner.

“É mais fácil cobrir o sol com um dedo que descobrir toda a sombra deste país”, disse o compositor argentino Leon Gieco. Assim entendo que na Argentina existe um leque de realidade em transformação tão grande como inclassificável. Existe uma parte da população originária que, mesmo contaminadas pelos meios de comunicação, vive a vida da Terra.

São como os Diaguita Calchaquies que em janeiro de 2011 se manifestaram pela primeira vez, na localidade de Cachi, depois de terem tido seus terrenos expropriados pela enésima vez. Da mesma forma que poucos meses antes havia acontecido aos Toba, da região de Formosa, onde vários manifestantes perderam, além da própria casa, também a vida pelas mãos da Justiça e do dinheiro.

Os representantes das comunidades manifestam agora uma mudança de cosciência e a vontade de muitos jovens é aquela de estudar, de serem professores, advogados, médicos, nao por interesses pessoais mas para servir o próprio povo.

Existe também uma realidade criada com a marginalização urbanizada, como a dos Toba de Rosário, que ficaram sem memória, estáticos, passivos, sem saúde e educação, na espera. Explica-me a diretora do Centro de Saúde Toba de Rosario, Olga Lifschitz, que de uma certa maneira a aceitação das desgraças faz parte da mentalidade deles sobre a vida. “O mesmo acontece com a saúde”, acrescenta. “A semana passada tivemos um caso de uma menina Toba em coma cuidada em casa. Vivia em um labirinto de casinhas e eu tive que passar muitas vezes, as crianças jogavam futebol lá no meio e os adultos não diziam nada. Enquanto ela estava quase morrendo, a mãe penteava os seus cabelos. Esta é uma situaçao de aceitação das coisas”.

Falando sobre isso com Raoul Noro, companheiro de vida de Milagros, ele enfatiza: “É este o tema. Estar é uma coisa, ser é outra. Estar é esperar que alguma coisa aconteça. Ser é a grande manifestação do espírito humano em ação”. Há uma quebra de voz e então ele conta que quando chegaram em Rosario com a “Marcha dos Povos”, aproximou-se de Milagros um Toba da vila miséria daquela cidade, a abraçou e chorou. Chorava como se dissesse: “Finalmente!! Alguma coisa aconteceu!!”.

Clique aqui e aprecie as fotos feitas por Yuma durante a reportagem.

(*) Yuma Martellanz é italiana e colaboradora da Guatá desde 2008. Cozinheira em um veleiro que cruza os oceanos, ela reporta, fotografa e escreve sobre a América do Sul em suas férias anuais. Texto publicado simultaneamente com a revista italiana

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