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RESENHA


E isto é "IT"

(*) Célia Musilli


Seguir o coração é uma proeza para poucos. A maioria fica no meio do caminho, assombrada com a possibilidade de fazer descobertas que possam pesar, transformar, romper, lançar cada um de nós no desconhecido. Clarice Lispector foi uma pessoa que gostava de viver à beira do abismo, não tinha medo de sentir e seu mérito era também sua maldição. Se eu fosse dizer que Clarice morreu de alguma coisa, diria que morreu de sentir. A impressão ficou mais clara quando acabei de ler a biografia “Clarice”, (Cosac Naify) escrita pelo norte-americano Benjamin Moser e traduzida magnificamente por José Geraldo Couto que disse:"Foi um trabalho que adorei fazer, porque o texto do Benjamin é muito bom e porque sou admirador de carteirinha de Clarice." A obra foi lançada no ano passado em duas edições: uma luxuosa, outra em formato de bolso, gordinha com suas 652 páginas que chegam a 748 com as referências.

Das biografias que li, esta é a mais completa, conta o que não havia sido contado antes sobre Clarice, seu desejo de salvar a mãe a partir de seu próprio nascimento, coisa impossível, já que a mãe padecia de uma doença incurável. A busca pela salvação parece permear sua vida e sua obra. Se não podia salvar a mãe quem sabe pudesse salvar a si mesma pelas palavras. Foi o que fez, se não para tornar-se uma escritora de sucesso – há indícios de que sofria com a fama - pelo menos para tentar compreender o sentido da vida: algo que ela coloca muito além da linguagem. Clarice perseguia as “coisas”, não apenas sua representação. Isso fica claro no livro “Água Viva”, considerado “literatura abstrata”, feita mais para ser sentida do que compreendida.

O livro se dá como uma série de impressões, sentimentos, emoções pulsantes, nele Clarice parece tentar apreender o tempo. Diz Benjamin Moser: “A forma fragmentária (da escrita), transmite a sensação real de estar vivo....a narradora, e com ela o leitor, está atenta a cada instante que passa e eletrizada pela triste beleza de seu inescapável destino: a morte, que se aproxima a cada tique-taque do relógio.”

Aquilo que não conhece ou é impenetrável Clarice chama neste livro de “it”, o pronome neutro em inglês. Assim, muitas coisas são “it”, como Deus é “it”, por todo o mistério que seu nome carrega. Se alguns consideram a literatura de Clarice hermética talvez seja porque ela mostra o quanto de oculto tem a própria a vida. A escritora demonstra em muitos momentos a sua busca de Deus, o maior mistério, o maior “it”.

Em “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” ela diz: “Embora não sendo humano, Ele às vezes nos diviniza.” É este divino, presente em todas as coisas, que Clarice busca ardentemente, numa corrida atrás das essências e também do quanto podemos ou não podemos determinar nosso destino. Não à toa em seu último livro “ A Hora da Estrela” ela escreve páginas e páginas antes de decidir se a personagem Macabéa vai morrer ou não depois de ser atropelada. Macabéa morre, mas antes a autora sonda todas as possibilidades, dando ao leitor a medida do poder da criação, mas separando criação e destino. Macabéa morre depois de uma cartomante lhe dizer que seria muito feliz, que sua vida mudaria completamente. Ela sai acreditando no que ouve e Clarice escreve: “Madama tinha razão: Jesus enfim prestava atenção nela.” A frase também nos dá a medida da inocência que mata e da verdade que extrapola a linguagem. Clarice queria dizer que nada sabemos de tudo, que não dominamos os acontecimentos. E isto é “it”.

 

(*) Célia Musilli é jornalista em Jaú, SP. Texto publicado na Folha de Londrina. Leia o blog da autora, www.sensivelldesafio.zip.net

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