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CONTO

 

A menina que morava numa bolha

(*) Carol Miskalo

 

Era uma vez uma menina muito branca. Mas ela não era só muito branca, ela era a menina mais branca do mundo. Essa menina sem nome vivia numa bolha.

Mas ela não vivia numa bolha por nãoconhecer outras pessoas, ela vivia na bolha por opção.
Essa menina tinha um jardim. Mas não era um jardim desses que você olha e pensa "que jardim bonito!", era um jardim desses secos, áridos e sem muita poesia.

Uma vez, há muito tempo atrás, esse jardim fora florido. Mas uma fada, dessas fadas novatas e um tanto vazias de sentimento, semeou pedras ali.

E desde esse dia, a menina resolveu morar sozinha em sua bolha.

De início, as pessoas acharam que seria dessas vontades passageiras que os jovens tem, mas viram que os dias foram passando e a menina se afastava cada vez mais.

Achando que essa loucura estava indo longe demais, os populares e curiosos começaram a se aproximar da menina que acabara virando a manchete dos jornais locais.

Muitas pessoas chegavam a essa menina com sorrisos.

Mas através desses sorrisos a menina não via nada e, assim, se virava e ia bolhar em outro lugar.

Muitas pessoas chegavam a essa menina com olhares.

Mas através desses olhares a menina não via nada e, assim, se virava e ia bolhar em outro lugar.

Muitas pessoas chegavam a essa menina com flores, falas feitas, frases prontas...

Mas através de todos esses regalos a menina nunca enxergava nada.

E ela sempre se virava e ia bolhar em outros lugares, buscando sempre o lugar menos habitado possível.

Um dia desses, desses dias normais em que não era para acontecer nada de extraordinário, a menina resolveu abrir a minúscula janelinha que existia em sua bolha.

E foi por acaso que encontrou um sorriso.

Mas não era desses sorrisos amarelos, nem sorrisos padrões, nem sorrisos perfeitos...

Era um sorriso franco.

Diferente de todos os sorrisos que ela já havia encontrado por aí.

Esse sorriso, não era um sorriso habitual. A boca dona do sorriso muito menos.

Por mais que tenha gostado do sorriso ela se apressou em fechar sua minúscula janela. não queria que nada desestruturasse o mundo bolhístico que criara para si.

Mas esse sorriso ficou em sua mente.

E a perseguiu.

Noites.
Dias.
Manhãs.
Madrugadas.
Chuvas.
Luas.
Brisas.
Tormentas.
E em todas as horas.
Todos os minutos.
Todos os segundos.

E quando ela percebeu, o sorriso estava com ela o tempo todo.

Certa manhã, dessas manhãs simpáticas de outono, a menina resolveu ter uma conversa com aquele sorriso tão teimoso que a acompanhava.

Então, colocou sua maior máscara e decidida saiu de sua bolha. Saiu com toda a firmeza e brabeza que a menina mais branca do mundo poderia ter e foi ter um dedinho de prosa com aquele Sorriso abusado que estava tirando seu sono.

Mas o Sorriso, que era muito malandro, já estava preparado para todas as palavras de desaforo que aquela menina tinha guardado para si como verdades absolutas.

Então quando ele percebeu que ela estava se aproximando, sentou-se sob a sombra de uma bela mangueira e respirou fundo. A menina ao perceber a tranquilidade daquele ser com ar tão petulante, encheu seus pulmões com todo ar que pode e falou tudo o que estava sentindo até então.

E ficou falando por horas, dias, semanas, meses...Doze para ser mais exata, e falou mais e mais e mais e mais e lentamente foi se esvaziando de conceitos, de sentimentos ruins e de mais algumas parafernalhas que não deixavam sua cabeça funcionar direito.

Quando ela realmente percebeu que não teria forças o suficiente para ganhar daquele riso calmo. Então, se despiu de todas as grades e muros que havia construído para se proteger do mundo e resolveu ser ela mesma.

Resolveu ser ela mesma ao lado do tal Sorriso, que afinal de contas ouviu tanta coisa que depois daquele dia não teve como não se tornarem grandes amigos. E agora estão por aí, caminhando pela vida em busca de alguma coisa que eles ainda não descobriram...

 

(*) Carolina Miskalo é estudante de Letras e atriz em Foz do Iguaçu, Pr. O conto foi publicado originalmente na revista Escrita, edição 19.

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