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CRÔNICA

 

A voz do gravador

(*) Ernani Buchmann

 

Situa-se o presente episódio na década de 60, época em que tudo em Curitiba passava pela Rua XV. Certa tarde, o radialista – às vezes também treinador de futebol – Borba Filho, então na Rádio Guairacá, vai cruzando por ali quando dá de cara com o diretor de futebol do Coritiba, circunspecto senhor hoje falecido.

Bom no ofício, Borba quis saber as novidades do clube. O homem foi sincero, reflexo da forja antiga em que havia sido moldado. A notícia do dia era o seu próprio afastamento da função. Preferia dedicar-se à mulher, já estava aposentado, não tinha mais saúde para incômodos em clube de futebol.

Borba Filho sabia não estar o dia cheio de assuntos quentes. Aliás, fora aquele, nada havia de novo. Pediu entrevista exclusiva. Iria até a casa do homem para que ele fizesse um balanço do trabalho desenvolvido no Coritiba, suas alegrias, mágoas, conselhos que daria aos interessados em assumir tais funções.

No estúdio da rádio, pediu um gravador. O único que havia era de rolo, trambolho difícil de carregar. Na falta de coisa melhor, empacotou o dinossauro e foi à batalha.

A senhora veio recebê-lo, indicou a sala para que esperasse até que se apresentasse o marido. Borba ficou admirando aquele universo inverossímil, cheio de bordados, bibelôs, móveis antigos, louças pintadas à mão.

O velho chegou envergando roupão, chinelos e meias. A mulher trouxe bandeja com café e biscoitos. Ficaram bom tempo conversando, o jornalista a elogiar a casa com ares de museu, o casal sentado de mãos dadas em cena de cinema mudo.
Sentindo que era hora, Borba Filho tratou de armar o apetrecho na mesa de centro. Afastou a bandeja, pediu tomada, instalou os rolos, bobinou a fita. Aí, antes de dar por iniciada a entrevista, lembrou-se de ouvir o que estava gravado, providência fundamental a todo profissional consciente do perigo de se perder matéria de arquivo. Pediu licença, aumentou o volume e soltou a fita.

Lá do fundo, das profundezas do antigo gravador, soturna, solene, definitiva, veio ao mundo uma voz de locutor:
- Atenção, testando: alô buceta, alô buceta, alô buceta!!!

 

(*) Ernani Buchmann é publicitário e escritor em Curitiba, Pr. A presente crônica foi publicada originalmente na revista Ideias.

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