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DISCURSO

 

À Câmara de Vereadores de Foz do Iguaçu

(*) Ilka Agripina Vera

 


A professora Ilka Agripina Vera faleceu neste 31 de janeiro de 2012, aos 92 anos de idade.
Formada em História e iguaçuense de origem argentina e paraguaia, Ilka trabalhou durante boa parte de sua vida nas escolas públicas
de Foz do Iguaçu, sendo uma das primeiras alfabetizadoras da cidade.
Também trabalhou na construção do Hotel da Cataratas, no Parque Nacional do iguaçu.
Pela sua dedicação à educação pública, Ilka foi agraciada com o título de cidadã benemérita pela Câmara de Vereadores local, na década de 80.


O texto abaixo é a reprodução
do discurso feito pela professora, agradecendo o título de cidadã benemérita de Foz do Iguaçu, concedido pela Câmara de Vereadores da cidade.

 

"Acredito que não exista satisfação maior e tão gratificante para qualquer cidadão que a de receber homenagem de sua cidade. Não há modéstia que possa esconder o orgulho que sinto neste momento, ao receber dos representantes de Foz do Iguaçu o título de Cidadã Benemérita. Sei, também, que esta é a forma que encontraram de homenagear todas as professoras primárias que, como eu, dedicaram boa parte de suas vidas a alfabetizar, a ensinar. É em nome de todas essas mestras, portanto, que recebo esta honraria. E, embora não tenha recebido esta delegação, é em nome de todas que falarei, acreditando que a condição de mais antiga me permite cumprir este papel.

                Durante todos esses anos, desde 1947, quando comecei a lecionar, eu não apenas ensinei. Aprendi, pela experiência que a vida me proporcionou, que não basta ensinar a ler e a escrever. É necessário, senhores, formar homens capazes de contribuir para a construção de um mundo melhor, onde estejam presentes e assegurados os ideais de liberdade, democracia e justiça social. Os mesmos ideais que fazem sobreviver esta instituição – a Câmara de Vereadores de nossa cidade, que hoje me presta esta homenagem. 

                Não sei se cumpri da melhor forma a minha tarefa. Mas espero que entre as centenas de crianças que passaram pelos bancos de minha sala de aula tenham frutificado homens e mulheres aptos a exercer sua função social, qualquer que ela seja, com espírito elevado de justiça e amor à Pátria. Se isto aconteceu, e creio que sim, terei cumprido meu papel e honrado a missão de mestra.

                Nem sempre, senhores, conseguimos fazer o melhor. Para nós, professoras, dedicadas à alfabetização e aos ensinamentos primários, a educação só teria seu sentido pleno se todas as crianças tivessem acesso às escolas. E todas tivessem condições de acompanhar o que lhes oferecemos como aprendizado necessário à sua formação. Infelizmente ainda vivemos os dias em que uma grande parcela da infância não chega à escola. E outra boa parcela, entre àquelas que chegam, não passa dos primeiros meses como aluno. As condições sociais não permitem condições de saúde e equilíbrio emocional para essas crianças continuarem aprendendo. Nosso trabalho, portanto, depende de tudo aquilo que a sociedade pode oferecer a seus filhos. E muitas vezes é frustrado ou não se realiza porque não fomos capazes de providenciar o necessário para construir novas gerações, cada vez melhores e mais capazes de fazer desta cidade e desta nação aquilo que sonhamos.

                Sei que todos os senhores convivem estas preocupações e procuram, na medida das possibilidades de que hoje dispõem, encontram soluções à altura. Creio que a homenagem que prestam hoje às professoras, através deste título que recebo, revela a importância dos obstáculos parara que ela se realize com plenitude. Tenho certeza que os senhores, representantes legítimos de nossa cidade, encontrarão os caminhos para tanto.

                Antes de terminar, quero agradecer aqui as contribuições que recebi para minha formação como professora com carinho. Lembro com carinho de minha primeira professoa, Dona Otília Schimmelpfeng. Lembro também de meu querido pai, operário argentino que habitou esta cidade quase toda a sua vida e dela fez sua terra. Ele ensinou-me a amá-la e ao seu povo. E a pensar sempre em construir, com o mínimo que fosse, para torná-la sempre melhor. Não poderíamos esquecer de todos os que ajudaram a construir esta cidade, onde nasci e sempre vivi, onde me realizei como pessoa e como mestra. E principalmente todos os professores que ensinaram gerações de iguaçuenses e que por sua dedicação e empenho sempre fizeram sentir orgulho de ser uma delas.

                Muito obrigada a todos.

 

(*) Pronunciamento realizado por Ilka Agripina Vera no Plenário da Câmara Municipal de Vereadores, em 30 de dezembro de 1980, ao receber o título de Cidadã Benemérita de Foz do Iguaçu.Texto extraído do jornal “Nosso Tempo”, edição de 07 de janeiro de 1981. Arquivo disponível no portal “Nosso Tempo Digital”. 
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