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CONTO

 

Instante

(*) recopilado por Pedro Carrano

 

A rede de Hector sacoleja apenas com a visão de Ramiro chegando à vizinhança e com a lembrança daquele dia.

Naquele dia Ramiro pediu pra Hector uma ajuda com o trabalho na plantação. Não tinha dinheiro pra pagá-lo, mas qualquer hora chamaria o amigo para um pozol, a bebida de milho de todas as manhãs.

Os dois levantaram cedo, bem antes que o meio-dia pesasse e desse o trabalho por terminado. Cortaram caminho pelo milharal, entre as trilhas imperfeitas da Selva Lacandona, em Chiapas.

Eles eram apenas sandália e calção curto. Nunca havia acontecido nada, mas sem grandes pretensões uma cobra mordeu a canela de Hector. Numa fração de segundos os dois se olharam, embora já soubessem. Ramiro sacou o facão da cintura. Hector ainda gritou que não, na verdade mais por desafogo, antes de ver Ramiro dar um golpe seco e separar a perna envenenada do resto do corpo do amigo.


(*) Pedro Carrano é comunicador em Chiapas, México. O conto acima faz parte de "O branco e o negro dos olhos", um mosaico de contos curtos latino-americanos e narrativas recolhidas no México, América Central e Andes por Pedro. Extraído do jornal Brasil de Fato.

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