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CRÔNICA


A Televisão

(*) Áurea Cunha


Morávamos no sítio, eu e meus outros seis irmãos. Eu era a sétima e última filha. Segundo a numerologia, onde está o sete, está o mistério! Coisa que até hoje estou a procurar.

Naquele tempo e lugar, ir à cidade era acontecimento importante. E correu a notícia de que Lucila, uma vizinha de aproximadamente 12 anos, iria até a cidade com sua mãe visitar uns parentes. Eu e alguns de meus irmãos fomos até a casa dela para fazer um pedido especial. Que se ela visse a televisão, nos contasse tudo, nos mínimos detalhes, pois não tínhamos a mínima ideia de como era o tal aparato.

Ela fez a viagem e ao retornar fomos saber das novidades. Lucila já não era mais a mesma pessoa. Já não queria mais falar sobre a televisão. Talvez nem tivesse entendido bem o que era e estivesse com vergonha de admitir.

Ainda assim insistimos. E daí, viu a televisão? Mas ela tinha visto muitas outras coisas interessantes e ao vivo que a perturbaram bem mais .

Contou que as moças da cidade estavam usando botas de cano longo, acima do joelho e ainda nas cores preto e branco. Era a última moda! Lucila descreveu as botas com tanta riqueza de detalhes e animação que quase pudemos ver aquelas maravilhas nos pés de fabulosos seres. Falou que as moças pareciam princesas que flutuavam. Romanceou tanto que minha irmã, a segunda do clã em ordem decrescente, teve um chilique. Um surto, para os dias atuais. Ameaçou se jogar no rio Adelaide, caso não tivesse uma bota daquelas.

Outra irmã, a terceira, se apaixonou pela margarina que Lucila descreveu como um creme macio e delicioso que derretia na boca. Falou que o pão com banha que comíamos e achávamos uma delícia, era uma coisa horrível e nem se comparava com a moderna margarina. Essa também teve um chilique e saiu gritando pelo sitio: — Eu quero pão com margarina! Eu quero pão com margarina!

O resultado de tantas novidades foi que a minha irmã que se interessou pelas botas, fugiu de casa. Levou com ela duas vizinhas na aventura. Deu o maior rolo, tiveram que acionar até a polícia para procurá-las. Voltaram uma semana depois, sem as botas em preto e branco, porém calçadas no camburão branco e preto da polícia civil. Que lástima!

A que se interessou pela margarina, para usar um termo mais suave, foi mandada para a casa de parentes mais abastados, onde a margarina não era assim uma raridade.

No entanto, eu e meus outros irmãos, mais novos, continuávamos apenas querendo saber como era a tal da televisão. Depois de muita insistência, um dia, Lucila nos fez um breve relato. Disse que televisão era uma caixa onde as pessoas iam passando rápido e se escondendo na mata. E nada mais!

Passado o impacto de todos aqueles acontecimentos, Lucila voltou à sua rotina. E, nós, continuamos por um bom tempo sem entender o que era a televisão, até vir a conhecê-la “ao vivo” e em preto e branco, claro!

Idas e vindas, nesse admirável mundo novo, concluo que numa coisa Lucila tinha imensa razão. A realidade é mesmo sempre bem mais interessante.

Ás vezes, parece até filme!

 

(*) Áurea Cunha é fotojornalista em Foz do Iguaçu, Pr. Texto publicado originalmente na Escrita 22.
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