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crônica
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Parto do nada

(*) Luci Collin

 

A nossa verdade possível
tem de ser invenção
(J. Cortázar)

 

 

Parto do título. Nas fotos em preto e branco os olhares desafiam sombras. A caneta espera no ar: a rima é um tudo de novo. Invento voos. Configuro lobos, uivos. Abuso. O crítico comentou que eu preciso de enredos, não posso ficar patinando na invenção de cores inapagáveis, sabe mais o quê. E eu fico.

Reuni sonoridades para dizer aqui, frases que na verdade ventre e entranha. Frases que se acumulam com uma emergência impensável e a beatitude das flores cumprindo-se degenerescência. Pretendia clareza mas o vocabulário é escasso e não chega nunca até lá. Lá é aurora, por falta de palavra melhor. Lá é onde nasce. É acontecido. Meus dedos sujos de tinta e a tela vazia. A página. Repleta de predicativos, de adjuntos, de agravamentos, mas vazia, fosca, miúda. Pesa. Herdou o nada dos adjetivos. E agora eu deveria indenizar perdas e danos.

Míope demais para acertar contornos eu formulei um pedido: opere em mim esquecimentos, capacidade de ver e não tentar o eterno exame, o encaixe. Mas sempre esse tropismo por escuros, sede na hora errada. Tropeço por falta de ensaio. Pensei: pudesse eu iria para a guerra. Lavaria a ferida com água e sabão para evitar as consequências. Fui. Queria fazer de novo ontens. Episódios de buscas e de encontros. Esvaziamento de cabíveis. Por isso exerço invisibilidades, com ar viciado de quem perde a noção do que há muito foi eleito certo. Inescrevo. E sobrevivem as imagens que exercitam renúncias, referências, investidura de real e de crônico. Ao final, as voltas.

Fragilidade evidente, as circunstâncias da guerra vêm de dentro. Espalham-se pelos jardins sendo os ocres. Fiz seriedade de mim mesmo, jogo de forças, palavras que feito o têxtil. Severidade desde as primeiras frases. Modesta aventura sem perigo. As revelações pedem risos. As revelações pedem brios. E eu peço olhos para o nada.
Vencer secretamente enfim a guerra. Lutando ao lado do inimigo.


   

(*) Luci Collin é escritora em Curitiba, Pr. O texto foi publicado originalmente no livro "Inescritos",
edição Travessa dos Editores, 2004.

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