CONTO ___________________________________________________
a água e o ar
(*) Vanessa Campos Rocha
A mulher quase não sabia do homem que começava a conhecer, mas juntava os pedaços e construía. Pensava nele como criança que foi, que era, que seria. E vislumbrava seus passos.
Ela achava que ele queria mesmo ser um peixe. Porque admirava seus corpos moles e flexíveis e que nunca fechavam os olhos. Admirava o polvo com seus braços pensantes e que podiam ao mesmo tempo resgatar e expulsar.
Por isso estudou um pouco de "ictiologia": é a ciência que se dedica ao estudo dos vertebrados e invertebrados aquáticos, de sangue frio. Mas depois não. O desejo de ser um deles foi se distanciando, como alguém que vira as costas e caminha pela praia.
Foi sendo levado pela maré e nunca é de remar contra. Estava crescendo com idéias encaracoladas, com cachos suaves e amorenados e mãos alongadas e rebeldes. Disseram em seus atentos ouvidos que suas mãos eram de um talento, escolhidos pela vida e que elas que dariam sua serenidade.
ELE: terra firme. Entrou em comunhão com sus mãos. Colava seus ouvidos para ouvi-las, o que poderiam dizer? Tanto. Foi como que domando e aceitando também. Antes de tudo queria ser objetivo, não só criativo.
Viveu a idéia se materializando, fazia baús, portas e escadas. Tudo o que lhe vinha à cabeça. Tudo que suas mãos sonhavam. E conteve-se. Não conseguia fazer o que não era palpável. A madeira não sublima. Mas cria. Pensou em fazer o amor. E fez, um pequeno passarinho de madeira.
(*) Vanessa Campos Rocha é escritora, psicóloga e roteirista de cinema em Taubaté, SP. O conto "a água e o ar" faz parte do livro "Pequeno Tempo", editado pela autora no final de 2009.