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CRÔNICA
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Eu me maravilho, tu te maravilhas

(*) Célia Musilli

 


“- Eu sou louco.Você é louca.

- Como sabe que eu sou louca? – perguntou Alice.

- Deve ser – respondeu o Gato – do contrário não estaria aqui.”

O diálogo criado por Lewis Carrol em “Alice no País das Maravilhas” ilustra o mundo da menina que caiu num buraco e passou a ter surpresas que não aconteceriam se ela tivesse ficado na realidade.

Muitas vezes também salto para o “outro lado” e, do meu jeito, convivo com coelhos atrasados e rainhas que jogam bridge, enquanto escorrego no vácuo.

Se não chego a crescer ou diminuir de tamanho, as surpresas acontecem de outra forma, quando vejo a orelha translúcida do gato transformar-se num mapa de veias vermelhas ou uma lagarta virar uma borboleta azul. As borboletas azuis me intrigam desde criança, eu as via espetadas em quadros como objetos decorativos. Quase chorava, mas as asas metálicas capturavam meu olhar mesmo paralisadas. Caí num profundo encantamento quando vi uma delas voando e fiquei extasiada para sempre com o azul em movimento. Então, passei a desejar a tatuagem de uma borboleta, para ter no corpo a imagem do primeiro anjo que vi.

Mais tarde veria outros anjos, como os pássaros que me visitam quando estou distraída, sobrevoando a sala para sair pela janela tão rapidamente quanto aparecem, bastando eu dizer baixinho: “Sai logo, senão o gato te pega.”

Estes acontecimentos são “minha vida de Alice”, representam a realidade paralela que enxergamos quando abrimos os olhos para coisas que acontecem e só percebemos quando viramos as páginas de nosso livro interno, onde as histórias do lado de dentro são costuradas com as histórias do lado de fora. Esta associação de ficção e realidade decerto é um dos motores da escrita, que nos faz encontrar palavras que deem conta das maravilhas que estão aí mesmo, para serem colhidas como maçãs.

No caminho por onde escorregamos para tornar a vida fantástica, às vezes encontramos pessoas que compartilham do nosso encantamento, são nossos Coelhos Atrasados ou os Gatos que Riem.

Só não estranha o “avesso da realidade” quem já caiu no vácuo que transforma situações corriqueiras em maravilhas. Assim, com meu deslumbramento pela vida, resolvi me enfiar um pouco mais no buraco, ainda que não possua a chave do tamanho, capaz de me fazer sair e voltar das situações de perigo.

De qualquer forma, devo me ausentar do blog por um tempo. Porque há muita coisa a fazer e na volta terei muito a contar, apesar de nem tudo ter explicação.

Como Alice, acho que a imaginação é um buraco sem fundo ou “a gente cai de um jeito que ele parece fundo.” Este é um ponto, assim como outros pontos, que nunca consegui esclarecer. Enquanto me ausento, eu me maravilho e tu te maravilhas com todos os acontecimentos, nem que seja para ludibriar a realidade. E assino CELIA que, do avesso, também poderia ser ALICE.


(*) Célia Musilli é jornalista em Londrina, Pr. Texto publicado originalemtne no blog da autora "Sensíveis Desafios".


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