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ARTIGO
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O rapaz doente: uma viagem histórica pela alma da África

(*) Ana Isabel I. GALEANO (UNIOESTE)
Fabiana Maceno DOMINGOS (UNIOESTE)
Profª Ms. Claudiana SOERENSEN (UNIOESTE)

 

RESUMO: A literatura africana é um referencial imprescindível para que conheçamos a história da África, muita castigada por guerras, seca e fome, mas que possui uma vasta e rica produção artística e literária. A atmosfera árida e embrutecida contrasta com momentos de humanidade e compaixão.  O presente artigo propõe uma breve análise do conto “O rapaz doente”, do autor cabo-verdiano Gabriel Mariano, e os mecanismos que engendram essa trama sensível na qual a irmandade, a solidão e o desprezo tecem uma atmosfera densa e poética que bem sintetiza as condições de uma África não tão distante de nossos dias atuais. Ao abordarmos a literatura africana é necessário pensarmos a literatura pós-colonial. Assim, os aspectos históricos de Cabo Verde, bem como o estudo sobre o autor serviram de subsídio teórico para a composição deste trabalho.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura africana; Gabriel Mariano; “O rapaz doente”


Introdução

            De tempos em tempos, a cultura adquirida e desenvolvida nos mais variados locais do planeta tem de alguma maneira sido concretizada por meio de códigos e signos que compõem a linguagem humana. Uma dessas possibilidades se traduz na escrita. Em sociedades consideradas inicialmente ágrafas, o ato de escrever, (principalmente naquelas onde o processo repressivo as suas culturas foi prática comum), é revelador da(s) lógica(s) que compunha o meio social na qual se encontravam.
Portanto, ler e estudar essas produções torna-se um exercício de reflexão, um mergulho na própria existência, e é com esse intento que o presente artigo versará sobre um conto produzido dentro do período pós-colonial africano.

A escolha do tema se fez no momento em que apreendemos um contexto, em que grande parte da população fica atada à ideia de que a “(...) a contribuição negra (...) é feita (apenas) por comidas, danças, carnavais e ‘feitiços’(...) em contraste absolutamente desigual com as ‘instituições’ da lei romana, da democracia grega, dá fé cristã, da ciência européia” (ANDREI, 2007, p. 13).
Essa ideia é fundamentada especialmente pelo silenciamento existente em diversos setores sobre outras formas de contribuição desses povos na formação da cultura brasileira e de outras culturas nacionais.

Não é difícil constatar essa prática, se observarmos as bibliotecas de escolas, faculdades, universidades e demais instituições de ensino. Quantos livros de literatura africana encontramos em suas prateleiras? Ou se nos perguntarem quantas vezes nos bancos escolares que frequentamos (ou que frequentam nossas crianças atualmente), foram abordadas temas relacionados à cultura, política, produções artísticas, culturais e literárias provindas do continente africano, provavelmente a resposta será negativa. Como é possível em um país com a segunda maior população negra do mundo, não contarmos com informações básicas sobre nossa ancestralidade?

Com base nesse quadro discreto de contribuições, e no combate ao silenciamento, pois este tem caráter preconceituoso e discriminatório, elegemos para nossa análise o conto “O rapaz doente”, escrito por José Gabriel Mariano Lopes da Silva, o conto faz parte de uma coletânea de contos intitulada “Estórias Africanas - História e Antologia”, publicada no ano de 1985, pela editora Ática e organizada pela professora Maria Aparecida Santilli, considerada pioneira nos estudos literários africanos no Brasil.

 No entanto para delimitar nossa pesquisa, visto que são inúmeras as possibilidades de análise do conto, optamos por selecionar dentro do campo da teoria literária duas linhas de pensamento.

A primeira diz respeito, a “Crítica Sociológica”, que segundo Marisa Corrêa Silva (2002), “ (...) busca compreender as produções literárias, enquanto produto de inúmeras dimensões que compõem o meio em que o autor e o leitor se encontram, ou seja, frutos de um contexto maior”.

 A segunda linha de pensamento refere-se aos “Operadores de leitura narrativa”, mais especificamente aos conceitos de “nó, “clímax” e “desfecho”, bem como a classificação das personagens consideradas fundamentais para o desenvolvimento da história. Para Arnaldo Franco Junior (2002), “a fragmentação de uma narrativa, permite- nos perceber os recursos utilizados pelo autor na construção do texto, além de possibilitar uma melhor compreensão das idéias do autor e a maneira como estas se complementam ou contradizem”. Natural em Cabo-Verde, Gabriel Mariano nasceu especificamente em Vila da Ribeira Brava, no dia 18 de maio de 1928, na ilha de São Nicolau. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, atuou como juiz em diversas colônias africanas.
Os escritos de Gabriel Mariano seguem uma linha de pensamento já delineada no principio dos anos de 1930, quando ocorre uma mudança significativa tanto em termos de estrutura/estética, quanto às temáticas anteriormente predominantes do estilo europeu.

Um exemplo disso é o surgimento da revista “Claridade”, fundada em março de 1936, na cidade de Mindelo, na ilha se São Vicente, por Jaime Figueiredo, José Lopes, Jorge Barbosa e Baltasar Lopes esta primeira fase, a preocupação era a de enraizar o cabo-verdiano ao solo pátrio, despertar orgulho pelas ascendências e costumes do homem mestiço ou negro.

A segunda fase desse movimento, da qual Gabriel Mariano passa a ser integrante
, (...) revelavam que a preocupação literária foi acrescida de implicações políticas (...) A literatura passou a ser um projeto ideológico, voltando-se para o popular, ao mesmo tempo em que colocava o princípio da nacionalidade e o tema da conquista das liberdades no centro de suas reflexões (HERNANDEZ, 1983, p. 529)

Por isso as temáticas passam a envolver problemas cotidianos do homem isleno, atuando como conscientizadora da situação de seu povo. Falecido no ano de 2002, o autor teve influência marcante na divulgação de uma literatura cabo-verdiana. Por meio de seus contos Mariano conseguiu, de certa forma, sintetizar os conflitos de um determinado momento histórico. Com base em um contexto político turbulento, suas obras acabam por ser a representação de uma angústia generalizada de seu povo, por isso é possível abstrair de suas obras as nuanças de viver e sentir. A literatura passa a ser então a parte que integra a realidade e representa a história, não de forma neutra, mas como uma produção social interpretada pelo escritor (POLAR, 2000; DADIÊ, 2002 apud MATA, 2006).

Considerados muitas vezes subversivos, os escritos de Gabriel Mariano estão envolvidos de sentimentos de tristeza, mágoa e resistência a dominação colonial. Suas personagens “(...) vivem as agruras de um cotidiano repassado de problemas velhos (...)” (SANTILLI, 2007, p, 25). Situações como a falta de recursos mínimos - no que se refere aos cuidados básicos a serem dedicados a qualquer população - a fome, a seca, a exploração de um grupo dominador, além de outros peculiares a Cabo Verde são abordadas ao longo desta obra.

 

1 - Analisando “O rapaz doente”

“O rapaz doente” é a representação simbólica de uma nação doente, na qual os direitos básicos do cidadão são tolhidos na tentativa desenfreada de exploração de qualquer riqueza, até mesmo daquela inerente ao próprio sujeito, a sua força de trabalho.

A obra supracitada é um conto que retrata um momento da vida de Julio, natural de Praia (capital de Cabo verde). Muito doente, o rapaz consegue uma viagem até São Vicente em busca de tratamento médico.

Chegando à ilha, solicita os cuidados de D. Maninha, personagem esférica, que carrega em sua personalidade traços ambíguos que desvelam uma alma tanto bondosa quanto cruel. Devido ao seu alto grau de densidade psicológica, D. Maninha possui diversas contradições entre seu “ser” e “fazer”. O primeiro marcado pela devoção de D. Maninha a Nossa Senhora da Conceição e por suas obras de caridade:

Uma hora antes tinha chegado da Igreja, onde fora dar uma olhadela no altar de Nossa Senhora da Conceição, de cujo arranjo era encarregada, e combinar com o Sr. Padre uma comida-de-anjo aos meninos de S. Vicente. D. Maninha tinha os seus pobres escolhidos a quem dava esmola todos os sábados, das duas às quatro da tarde” (MARIANO apud. SANTILLI, 1985, p. 112).

Dessa forma, o autor, em um primeiro momento, a caracteriza como bondosa e religiosa, no entanto, no decorrer da obra, delineia um novo perfil para sua criação, este sim demarcando o seu “fazer”.

“Bem que ela se esforçou por não dar a perceber, mas a sensação de repulsa colou-se-lhe ao espírito. Era evidente o seu esforço em falar com o rapaz.” (MARIANO apud. SANTILLI, 1985, p. 113). Este novo perfil a desenha como um ser humano cruel e insensível, diante da situação imposta pelo marido (já que este é quem encaminha Julio até São Vicente) e sob as circunstâncias de saúde na qual se encontrava o rapaz, tratou-o sempre com desdém e repulsa na maior parte do texto, assim o garoto era visto constantemente como um incômodo “(...) Julio tornava-se um fardo do qual era necessário ver-se livre. Pediu a Deus que a ajudasse no transe.” (MARIANO apud. SANTILLI, 1985, p. 118)

A pseudo bondade de D. Maninha é sobreposta por uma ânsia de livrar-se de Julio. Aqui podemos identificar o “nó”, ou seja, o “problema ou obstáculo que deverá ser resolvido” (JUNIOR, apud. BONICCI; ZOLIN, 2005, p.43), e que, portanto define o princípio do conflito dramático da narrativa em questão.

 O desespero de D. Maninha em resolver a situação era para que esta voltasse à tranqüilidade de seu cotidiano. Julio representava algo que fugia ao seu controle, por conta disso, ela precisava que ele partisse para estabelecer novamente a sua ordem. Sua frieza manifesta-se, principalmente, quando ela ouve os relatos do rapaz e, ainda assim, não os considera plausíveis para a doença do menino. D. Maninha ignora seu sofrimento, minimiza-o, para que com isso ela possa também justificar a ausência de remorso por querer ver-se livre dele.

A figura religiosa de D. Maninha contrasta com sua insensibilidade. Ela é meticulosa e calculista e engendra possibilidades mentais para a solução do problema que instaurava-se em suas mãos.

Ela tem vergonha de Julio, “(...) era conveniente não dar a perceber aos outros o que estava se passando. Disse à criada que levasse o rapaz para a cozinha” (MARIANO, apud SANTILLI, 1985). Ao esconder e pedir segredo à empregada sobre a presença do menino em sua casa é como se com isso, ela conseguisse também anular a atitude de ter que mandá-lo embora, uma vez que, quanto menos pessoas soubessem de sua existência, menor seria a necessidade de retratar-se por seu descaso.

A religiosidade latente dessa personagem nos aponta ainda outros aspectos de ordem histórica: a condição de “assimilado”. A esta categoria pertenciam aqueles que sabiam “ (...) ler e escrever na língua portuguesa; possuir meios necessários para a sua subsistência e a de sua família (...), diferenciar-se pelos usos e costumes da sua raça (...), ser comerciante ou industrial (...), ser natural das províncias portuguesas (...), ser maior de idade (...) (HERNANDEZ, 1983, p. 513)

Existiam ainda outras imposições, contudo, destacamos essas como principais para chegar à classe de “assimilado”. Na figura dramática de D. Maninha são visíveis algumas das condições acima mencionadas.

Hipoteticamente poderíamos pensar que esta se dedicava aos cuidados de um pequeno comércio de comidas, visto a sua preocupação em esconder o rapaz doente na cozinha e pedir silencio sobre o mesmo para sua criada, já que aguardavam a chegada de pessoas, além de sua pressa em preparar o jantar, descrito quase no fim do conto. “Tanto mais que daí a um pouco chegariam os filhos do Liceu”, “(...) D. Maninha despediu-se do rapaz doente. Tinha de ir depressa por causa do jantar” (MARIANO, apud, SANTILLI, 1985, p.113).

Esse seria o meio de subsistência da personagem, certamente um complemento ao trabalho do marido Armando, apesar deste aparecer sem uma definição clara sobre sua profissão, assemelhava-se a uma espécie de vendedor.

A religiosidade exacerbada de D. Maninha pela fé cristã/católica corresponde a ideia de afastamento e diferenciação dos usos e costumes da cultura de mestiços ou negros e a adoção e manifestação de outros, considerados evoluídos.

Essa forma de pensar, pode ser melhor compreendida se concebermos  a  teoria da hierarquização de culturas, segundo esta

“(...) Todas as sociedades humanas fariam necessariamente parte dessa escala evolutiva, dessa evolução em linha única. Assim a diversidade de sociedades existentes no sec. XIX representaria estágios diferentes da evolução humana (...). Essa hierarquização quis dar legitimidade para o domínio europeu sobre o outro” (SANTOS, 1983,  p.14).

A partir desse argumento, criou-se um modelo ideal de desenvolvimento a ser seguido, no caso a civilização européia e todas as suas formas de relações sociais, políticas, econômicas e culturais, ao mesmo tempo em que se buscavam classificações para sociedades “inferiores”, colocando-as geralmente como selvagens ou bárbaras.

É nesse aspecto que a “Crítica sociológica” nos faz apreender as relações que levaram a formação desse argumento, fazendo-nos observar que “(...) nossos hábitos, crenças e valores não surgiram ‘naturalmente’, nem são eternos” (BARBERIS, in. SILVA apud BONNICI, 2005, p. 142)

Assim temos a noção de que a “verdade” é uma construção humana, constituída pelo que Michel Foucault (1970) chama de discurso, este por sua vez produz sentidos de certo/ errado, moral/imoral, bom/mal entre outros, por aqueles que dentro desse momento especifico são detentores dos meios de produção, sejam esses intelectuais, financeiros políticos ou culturais, com o claro objetivo de manterem-se no poder, estendendo aos demais as “verdades” por este grupo ditadas.

Outro ponto seria o fato desta ser alfabetizada, “D. Maninha leu por duas vezes a carta do marido (...)” (MARIANO apud. SANTILLI, 1985, p 112). É pertinente observarmos a maneira como são realizados os diálogos desta com as demais personagens, em nenhum momento, faz-se uso de expressões locais em sua fala, bem como sua pronúncia é a de um português correto.

Poderíamos, então, pensar que D. Maninha pertencia a um grupo étnico de cor branca, todavia, a particularidade na formação social de Cabo Verde, que contém em sua gênese “(...) o caldeamento entre culturas africanas e européias. (CARVALHO, 2003, p.17), Marcado pelo póstumo abandono do homem branco a esses territórios, devido aos poucos recursos de sobrevivência oferecidos ali, deu lugar para que o mestiço ascendesse de posição dentro dessa sociedade específica. Por tais motivos acreditamos que a personagem seja uma mestiça, ou negra assimilada e não uma caucasiana.

Ao prosseguir nossa investigação, apresentaremos nosso segundo protagonista: Julio, o rapaz doente. Com um baixo grau de densidade psicológica, pode ser considerado como um personagem plano já que carrega os signos mais dominantes de um determinado grupo social. Ao lhe atribuir adjetivos, o autor, não nos fala apenas do indivíduo Julio, e sim de toda massa de trabalhadores representada por ele. Sua descrição oferece uma imagem extremamente frágil e passiva do rapaz. “Tinha um ar apatetado (...), a sua voz muito branda e muito tímida (...) sentia-se lhe nos gestos o jeito humilde de quem se habituara a pedir desculpas (...) o rapaz, enfraquecido e amarelo, impressionava qualquer um. (MARIANO, apud. SANTILLI, 1985, p. 112)

O autor não nos apresenta uma referência exata da idade de Julio, mas, alguns dados de sua descrição como, por exemplo, “rapazito” ou ainda, “com seu ar de menino”, além da amizade que estabelece com Norberto (moço criado desde pequeno por D. Maninha), nos dá indícios de se tratar de um jovem ou adolescente com idade entre 15 e 20 anos.

 

2 - “O rapaz doente” e seu contexto histórico

São Tomé, local onde o protagonista diz ter começado a sentir os primeiros sinais de doença, nos mostra as condições precárias e semi-escravas a que a população era submetida, além dos maus tratos recebidos, caso reagissem ou se o fim de suas forças não permitisse mais o trabalho duro e contínuo.

E o rapaz doente contou. Tinha sido na roça Zé Maria. Trabalho duro, enterrado na lama. Uma vez fui preso por largar trabalho antes do tempo (...) O chicote de cavalo marinho queimava que nem lume. Cortaram-lhe o cabelo. A cabeça ficou cheia de regos (MARIANO apud. SANTILLI, 1985, p. 114-115).

O trabalho na lavoura se dava principalmente para a produção de gêneros alimentícios que abasteciam navios, além dos artigos úteis no escambo para aquisição de mão de obra escrava. Dentre os que migravam para São Tomé, tratavam-se geralmente de “(...) vítimas de promessas falsas de um emprego estabilizador e bem remunerado (...) depois de sediados (...), viviam num regime de quase escravatura. Ficavam impossibilitados de retornar a casa devido ao pouco dinheiro que lhes era cedido” (CARVALHO, 2003, p. 49).

Nessas condições, já exaurido de suas energias pelo trabalho forçado, Júlio adoeceu e apenas após o término de seu contrato teve a esperança de cura, quando pode regressar a Praia. “Durante uma semana sapou capim nas ruas da cidade. Febre pegou-o para nunca mais. Dia sim, dia não... Quando terminou o contrato regressou para a praia” (MARIANO apud SANTILLI, 1985).
O autor com isso nos faz perceber a relação que se tinha entre patrões e empregados. Esta afirmação nos remete ao fato de que o jovem era visto apenas como força de trabalho e após ser contratado, mesmo frágil e doente, não poderia deixar de render lucros ao seu senhor.
Comum àquela região, o trabalho escravo ainda trazia os reflexos dos primórdios da colonização da África.

Na exploração da costa africana, os portugueses se enraizavam em alguns lugares, como as ilhas do Cabo Verde e de São Tomé, criando sociedades onde antes ninguém  morava.[...] reproduziram a experiência com o plantio da cana sacarina e a montagem do engenho de açúcar que já haviam realizado nas ilhas dos Açores e da Madeira [...] as ilhas africanas a população foi constituída, basicamente por africanos, de procedências diversas, que eram subordinados pelos portugueses e mestiços que nelas nasciam ( SOUZA, 2008, p.54)

Aqui é fundamental nos atermos a duas questões: a primeira diz respeito à condição social de Julio dentro dessa sociedade. Após a abolição da escravatura em 1899, inicia-se em todo território africano campanhas de “(...) ‘pacificação’ ou ‘domesticação, com o uso da atividade militar para calar os povos africanos e torná-los submissos á burocracia colonial portuguesa (...)” (HERNANDEZ, 1983, p. 508)

Para alcançar tal “pacificação”, cria-se em 1914, o Código de Trabalho Indígena, que considera: “(...) ‘indígenas’(...) aqueles que deveriam ser civilizados pelo governo, por meio do hábito do trabalho, considerado uma ‘obrigação moral e legal’(...)” e “(...) delegava aos patrões o direito de prender e castigar os ‘serviçais’” (HERNANDEZ, 1983, p. 515).

Por meio desse regulamento, foi possível manter um regime de trabalho, pautado na repressão e na violência. Já em 1928, esse mesmo regulamento proíbe o trabalho forçado, “(...) substituindo-o pelo contrato, entretanto, essa foi apenas uma manobra para (...) escamotear a prática prevalecente” (HERNANDEZ, 1983, p. 516).

O segundo ponto a ser esclarecido diz respeito a essa “nova” forma de trabalho, já que Gabriel Mariano explicita em sua narrativa  tal termo (contrato) para caracterizar o serviço prestado por Julio.
Mesmo após a abolição jurídica da escravatura, o sistema de exploração humana deixou marcas profundas nas formas de trabalho posteriores. A maioria dos contratos estabelecidos era feito apenas verbalmente, pois grande parte de população não era alfabetizada e devido às más condições de vida do homem isleno, aliados à seca, à estiagem e à fome, esses não viam outra saída a não ser submeterem-se a essas condições.

É essa a denúncia que o autor traz em seu texto. A relevância consiste novamente em frisar que o trabalho forçado é abolido, segundo as leis nacionais, em 1928 e que o texto de Gabriel Mariano é publicado em 1957, o que nos permite ter uma dimensão da permanência ainda muito viva da herança escravocrata na sociedade cabo-verdiana.

Ainda sobre essa personagem, destacamos a estratégia utilizada por Gabriel Mariano para sensibilizar o público. Apesar das críticas feitas ao modelo de sociedade vigente no período e da angústia criada pela evolução do conto, o autor consegue desnudar toda a humanidade de sua personagem, embutindo-lhe sentimentos comuns a qualquer jovem (na verdade, comuns a qualquer ser humano).
Dessa forma Julio é reumanizado, capaz de sentir, pensar e desejar, saindo do status de objeto-coisa, mercadoria utilizada pelo senhor/colonizador na exploração de riquezas. Humanização esta que aparece fortemente descrita na sua relação com Norberto, jovem que, ao contrário da mãe adotiva, sensibilizou-se do estado no qual se encontrava Julio: “Norberto simpatizou com o rapaz doente e teve pena dele. Desejando do fundo da alma que Dr. Nogueira os atendesse direito.” (MARIANO apud SANTILLI, 1985, p 117).

No prosseguir do conto D. Maninha, acompanhada de Norberto e de Júlio, busca a ajuda de doutor Nogueira (a quem a carta escrita pelo senhor Armando endereçava-se), este ao perceber a gravidade da doença do moço, diz que não há possibilidades de interná-lo na casa de saúde, a menos que este portasse uma autorização do diretor do hospital. Esse tipo de inconveniência burocrática corrobora para a tensão da trama que se alonga ao passo que o problema não pode ser solucionado.

Estarrecidos com o insucesso da campanha e com certo desespero, os três procuram pelo médico responsável pelo sanatório. Contudo, a resposta do diretor é previamente antecipada pelo enfermeiro.

- Sabe, minha senhora, a culpa não é nossa... são ordens... E ia acrescentado pesaroso, que todos os dias apareciam casos como aquele: tudo quanto se fazia era dar consulta e receitar. Se o doente pudesse tratava-se, se fosse pobre... paciência” (MARIANO apud. SANTILLI, 1985, p. 120).

Neste trecho encontramos o clímax do enredo no qual a expectativa do desfecho fica mais latente. No entanto, ao invés de uma solução para o problema, as personagens deparam-se com outro obstáculo: a falta de recursos para o atendimento desses trabalhadores, em regime escravocrata. O descaso é mostrado como o topo da desesperança de Julio, e por isso, temos o desenvolvimento do segundo “nó” presente no princípio deste texto, o abandono por parte daqueles que poderiam ajudá-lo, (já que em São Tomé e em São Vicente não existiam remédios e tratamentos), o condena a morte prematura.

Com relação ao primeiro “nó”, a solução é apontada pelo enfermeiro com quem dialogava:

- E agora?
- Agora que minha senhora?!
- Este rapaz doente?
- Acho que não vale a pena... Não vale a pena: o diretor não autoriza...
- Acha?
                            - Seria água em balaio
                            - Que é que eu vou fazer?
- Eu acho que a única solução é ele voltar para donde veio. (MARIANO apud    SANTILLI, 1985, p. 121).

Agora a personagem finalmente encontrara a solução para seu problema, ao mesmo tempo em que se instalava outro, prontamente resolvido por ela e pelo enfermeiro:

- Mas e hoje? Eu não vou levá-lo para a minha casa (...), ele não podia dormir aqui no hospital? Só esta noite?
     - Dormir... Só se for aqui no corredor... O banco é comprido e ele acomoda-se bem.
 D. Maninha respirou. Naquela conjuntura a idéia do enfermeiro surgia como uma      tábua de salvação. (MARIANO apud SANTILLI, 1985, p. 121).

 

Por fim, chegamos ao desfecho, Norberto e Julio atentam as recomendações de D. Maninha para que voltassem ao hospital depois de algumas horas, pois o trato feito entre ela e o enfermeiro, não contava com a autorização do diretor do hospital.

O desfecho da história põe em evidência o sentimento fraterno dos dois rapazes: “Norberto aproximou-se do rapaz doente e passou-lhe a mão por cima do ombro. Amou-o com ternura de um velho amigo” (MARIANO, apud. SANTILLI, p. 123), mas este compreendia bem o destino à espera do rapaz: “Aquela magreza de Júlio trazia-lhe a chã da memória a figura de Lela, seu companheiro de menino. Lela morrera e o rapaz também tinha os seus dias contados. daquela doença ninguém escapa. Norberto sabia” (MARIANO apud SANTILLI, 1985, p. 123).

Julio encerra o conto abandonado, sem abrigo e sem afeto, convive com sua dor. Sem chances de cura e de perspectiva de vida, aguarda o despontar do dia para regressar a Praia. Talvez, o outro dia sequer tenha chegado para Julio, uma vez que o conto finaliza sem uma perspectiva do que realmente possa ter acontecido ao garoto posteriormente.

Gabriel Mariano nesta obra relatou-nos toda a miséria que acompanhou a vida de sua personagem, representando através dele, seu olhar pesaroso diante da situação de milhares de trabalhadores cabo-verdianos. O conto, porém, não se faz apontando caminhos que levem ao fim da circunstância imposta, não há uma busca de melhorias nas condições de trabalho e de vida, mas como observa Carvalho (2003), isso não significa que o autor concorde com a conjuntura do momento e, referenciar tal anormalidade, já significa uma prática de denúncia ao problema.

            A literatura é apenas o recorte de um cotidiano circundado de situações difíceis, mobilizada pela vontade de exposição e reflexão sobre elas. “O rapaz doente” termina assim como iniciou: sob uma atmosfera de desprezo e descaso. Julio conseguiu abrigo por uma noite, mas a perspectiva de que o dia seguinte chegaria era apenas uma suposição.

Referências

ANDREI, Maria Helena (org,). Cultura Afro-Brasileira - Civilizações Africanas. Londrina, Universidade Estadual de Londrina, Cadernos Uniafro, Vol.3, 2007.
CARVALHO, Luís Filipe Sousa Martins Torres de. Rebeldia e sensualidade no Suplemento cultural [Texto policopiado] : uma perspectiva da produção literária dos poetas 'insubmissos' / Luís Filipe da Sousa Martins Torres de Carvalho. - Lisboa : [s.n.], [D.L. 2003]. Disponível em http://www.fl.ul.pt/posgraduados/teoria_literatura/CarvalhoL1.pdf  .Último acesso em 02/07/2009.
FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. Paris: Éditions Gallimard, 1971.
FRANCO JUNIOR, Arnaldo. Operadores de leitura da narrativa, in BONNICI, Thomas; ZOLIN, Lúcia Osana. Teoria Literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. 2ª ed. Maringá, Eduem, 2005.
HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de aula: visita à história contemporânea. 2ª. ed. rev. São Paulo: Selo Negro, 2008.
SANTOS, José Luis: O que é Cultura?  Coleção Primeiros Passos. Brasiliense, São Paulo, 1ª edição 1983.
MATA, Inocência. O crítico como escritor: limites e beligerâncias, in CHAVES, Rita. MACEDO Tânia. Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.
SANTILLI, Maria Aparecida. Estórias Africanas: História e Antologia.  Ática. São Paulo. 1ª edição, 1985.
SILVA, Marisa Corrêa. Crítica Sociológica, in. BONNICI, Thomas; ZOLIN, Lúcia Osana. Teoria Literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. 2ª ed. Maringá, Eduem, 2005.
SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil africano. São Paulo. Ática.  2ª edição. 2008.


(*) Ana Isabel Galeano é formada em História. Fabiana Domingos é formada em Letras. Claudiana Soerensen é mestra do curso de especialização da Unioeste - campus Cascavel. O presente artigo foi apresentado no curso de especialização "Artes, Cultura e História afro e indígena, na Unioeste.


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