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CONTO
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Insônia

(*) Fábio Campana

Houve um menino. Um quintal, uma cetra, o alvo e o seu vôo. Algazarra de pássaros e crianças. Primeira geografia. Território das descobertas. Movia-se como suserano dos atalhos, dos becos e dos campinhos.

Houve o pai e a proteção que recendia a medo. A mãe e os remédios. No domingo um sorriso e a mesa farta. Houve a avó de olhos ressecados curvada sobre um versículo do Novo Testamento. O avô, cravo branco na lapela, bailando uma valsa imaginária no silêncio da sala.

Houve um horizonte sem morte. O menino imantado de estrelas submerso entre lambaris de rabos dourados. Águas do desafio, medos crepusculares, auroras flamejantes, chuvas, tempestades, dias cheios de luz.

Houve o pomar de frutas doces furtadas antes do tempo. O rosto amassado na vidraça, o menino olha a tormenta armando-se em nuvens que esculpem fugazes figuras de deuses.

Houve a vida. E o menino espiava o mundo à espera dos sóis prometidos.

E eis que se deparou com um vale de luz e tormentos. E coisas extraordinárias aconteciam.

Viu a ferrugem das flores, a ratazana da fome e pedaços do mundo dividido. Caras de desespero e fuligem. A cicatriz do escravo e o açoite dos senhores. Crianças amamentadas em seios envenenados.

Então houve um jovem em sua rebelião de porcelana e aço. Houve um tropel de justos. Cavaleiros da utopia, ébrios de slogans, anjos da anunciação, deuses instantâneos, luzes das profecias.

Houve ousadia nos músculos. Houve o impulso da pedra, a frieza do insulto, o corte das facas, o tiro. Queria mudar o mundo destruindo as estátuas.

Houve um bosque sem palavras. Houve uma pomba negra, houve um animal faminto, houve a resistência da pedra, houve coragem e medo. Houve o fogo. O ferro e o aço rebelados contra os donos. Houve a noite lôbrega de matanças. Houve exceções e extermínio.

E eis que se viu em um bosque sem palavras. E coisas extraordinárias aconteciam.

Houve dúvidas em horas insones. Houve o claustro e os caminhos. Aulas laxativas de direito romano e formas inumeráveis de vida. Na gaveta, um roteiro de filme e um conto interminado. A leitura adiada dos clássicos, todas as vocações e nenhuma. Canções de protesto, passeatas, panfletos, entusiasmos alcoólicos, discussões inconclusas, poesia.

Houve um clamor de Dies Irae. Carne macerada no chão de cimento áspero. Membros desgalhados. Lírios ensanguentados. Houve um campo de luta e um reino cego, um templo profanado, uma tumba de abandono. Discursos feitos de pedras derruídas.

Restou um moço na atmosfera do sonho. E eis que esse tempo foi curto como um relâmpago. E eis que o sonho foi despertado pelo soco. Algemas. Uma sala, os golpes, os choques. Paredes manchadas de sangue. Um corpo despido no cimento áspero. Uma voz insistente. Perguntas. E o mundo era feito de sons. Gemidos, tiros, gritos, lamentos, sirenes, murmúrios, ordens.

Houve o jovem e seu pânico. O limite das grades e do medo. A violência em galões dourados. Houve um menino no jovem e suas lembranças. Tinha amigos e eles nada podiam fazer. Houve uma ilha, gaivotas, mar, o mar noturno, invisível e trágico, outras ilhas, vagas, ressacas, o mar pleno de luz. A morte se insinuava em uniformes de guerra, fuzis, gargalhadas, pistolas, afogamentos, perguntas, choques, golpes nas espáduas e nos rins.

Eis que tinha pais e irmãos e eles nada podiam fazer. E coisas extraordinárias aconteciam.

Houve um homem que se desgarrou do jovem e lançou o menino no limbo e refugiou-ses na indiferença dos cínicos. Houve o sonho branco do esquecimento. Houve uma foto em revista da província. O osso de uma flauta derramava música áspera sobre a sua solidão de pedra. O homem se rendeu. Ouvia murmúrios, suspiros sufocados, gritos e gemidos, o gemido angustiado de quem sonha. Não conseguia lavar de sua boca o sabor de ruína.

Então houve um jovem procurando o homem. Fatigado ao peso de seu fardo. Lembrançãs do amor e da guerra. (Rios de peixes dourados, o soco não devolvido, um manto de estrelas, o sorriso de Alba, os golpes nas espáduas, os choques na cabeça, o conto interminado, as canções de protesto, a morte de um uniforme branco e galões dourados, o roteiro do filme, a menina Elsie, a ousadia dos músculos, a melancolia dos pátios, caras de desespero e fuligem).

E eis que diante dele se estendeu uma paisagem de silêncio e solidão. E coisas extraordinárias aconteciam.

O moço encontrou o homem e mostrou-lhe o menio em sua noite de olhos cerrados, pedindo os sóis que lhe prometeram. Tem o corpo dissipado, a memória sem alma, as idéias gastas, os olhos coagulados pela afronta, a deserção, o morto. Viu os abutres e dentro de suas entranhas os espasmos de deus. Viu a queima da profecia, as cinzas do império, os sinais do vento, a guerra inacabada. Interminável.

Houve um grito intermitente em sua alma. Era tarde. O moço levantou-se do leito de agonia. Lambeu as feridas. Cobriu as cicatrizes. Pregou em seu rosto o sorriso dos cínicos, vestiu a pele do algoz. Pediu ouro, poder e glória.

E exilou-se na escuridão.

(para Teresa Urban)

 

 

(*) Fábio Campana é escritor e jornalista em Curitiba, Pr. "Insônia" foi extraído do livro "Todo o Sangue", editado pela Travessa dos Editores, em Curitiba, no ano de 2004. Acesse ao blog editado por Fábio Campana, clicando aqui


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