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CONTO
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A mulher gorila

(*) José Rezende Jr.

 

– Vê: o próximo passo é o abismo, e lembra-te que a queda é sem volta – disse o demônio ao menino.

– Há muito o sei, aprendi na lama bruta onde se forjam todos os homens, desde o primeiro – respondeu o menino, resoluto.

– Avante! – exultou o demônio, afiando a língua entre as presas.


***

Eu te invoco, demônio dos Infernos! o locutor berra, ordena feito um possesso, Façam-se as trevas! e a escuridão se faz, e ele grita ordens desencontradas, feito um possesso ele grita muito além do som áspero do ferro que se rasga, mais alto que os urros dos demônios na escuridão, o choro das crianças, o riso histérico das moças, os ombros e os joelhos dos homens fortes a trombar contra a lataria enferrujada na fuga desesperada pela porta estreita, e a ferocidade do cheiro, o fedor de bicho morto, e ele, o conjurador de demônios, ele, o locutor, ele, o que acende a sombra pálida e traz à tona a silhueta do monstro, o pânico da multidão, a multidão que já não pode fechar os olhos ao horror, a multidão forçada
a ver: a frágil moça há pouco vestida com o biquíni obsceno que lhe desnudava a perfeição do corpo deu lugar à horrenda nudez do monstro, o monstro acaba de rasgar o ferro da jaula, o monstro está a um passo da garotinha da primeira fila, a garotinha grita, o monstro urra, o monstro estica as garras enormes e, obrigada, não sou de beber, só mais um, o último, você é um menino estranho, desculpe-me por chamálo “menino”, mas, reconheça, é infantil e tolo buscar neste tanto álcool barato a chave do seu crescimento. Agora é mesmo o último, desculpe-me se disse isso antes, do copo anterior, dos copos anteriores, se o chamei outras vezes de menino, perdoe se bebo além da conta e de um gole só, é a sede, sempre, toda noite, depois da última sessão: a sede.

Onde estávamos? a garotinha, isso, a garotinha grita, o monstro estica a mão peluda, roça e rasga o vestido da garotinha com as garras afiadas, o horror, o cheiro de urina, a garotinha, coitada, Calma, monstro! o locutor grita, Calma, monstro! ele ordena, e estala o chicote, O público é nosso amigo, monstro! Pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, monstro! ele suplica, ele... mas por que desperdiçarmos tanto tempo precioso? você viu com os próprios olhos, ouviu os gritos de pavor, sentiu os fedores…no entanto, não me surpreendo, sei, precisa ouvir de novo, de minha própria boca.

Não o censuro; conheço cada uma das infinitas fragilidades de sua triste espécie masculina. Eu te esconjuro demônio das trevas! Volta para as chamas do Inferno, Satanás! o locutor exorciza, estala o chicote com esferas de aço, fere muito, o chicote, quer ver? por isto não me visto com decotes, não, não acenderei a luz, não há luzes a serem acesas, não há nada para os olhos enxergarem, me dê a mão, assim, consegue ver com os dedos, minhas cicatrizes, as costas em carne viva? continue, eu gosto, afague minhas costas enquanto conto, assim, quer que eu desamarre a parte de cima? gosta? isso, não pare, assim… assim…

Monstro! Volta para o Inferno, Satanás! ele reza, xinga, esconjura, chicoteia, as luzes piscam mais alto, o monstro hesita, começa a ceder à força do exorcismo, o monstro urra, o monstro
se contorce, perde altura e envergadura, sente a dor dos músculos e ossos que se atrofiam, tufos e mais tufos de pêlos arrancados em desespero, garras e dentes que já não caçam nem devoram, até que morre o monstro e volta à vida a mulher de biquíni obsceno, mas quase já não há testemunhas, fugiram todos, menos você, homens mulheres crianças aos empurrões varando nem Deus sabe a porta estreita do trailer enferrujado aterrorizando/excitando os pagantes da próxima sessão, fugindo todos, menos você, não fugiu quando havia tempo, ao contrário, foi o último a sair, muito depois de tudo terminado, quando já não havia nada nem ninguém, e tive a certeza de que você era diferente, não nessa hora, mas ainda antes, bem antes, no princípio, antes de tudo.

Não entenda como grave ofensa à sua macheza incipiente de moço, mas não é o primeiro, há sempre um, diferente, assim como você, há sempre um, a mesma penugem rala, o desamparo clandestino nos bruscos e indecisos gestos, há sempre um em cada cidade onde atraco meu mambembe circo de metamorfoses. Vi, pressenti, farejei: você era um deles. Senti seu cheiro, você olhava para mim, olhava para mim desde muito antes da metamorfose, antes de iniciada a sessão, para mim não, olhava para a inocente e repulsiva mulher de biquíni obsceno que então era eu, antes da metamorfose, olhava não com desejo, mas quase com indiferença, e vi depois o reverso: seus olhos na véspera do gozo, seus olhos acesos na escuridão tal como os vejo agora, e vi em seus olhos a sede, saboreei sua fome no instante divino em que a mulher de biquíni obsceno deu lugar à encarnação do monstro que prefiro ser e que, sei, você deseja e teme. Não era a garotinha da primeira fila a merecer meu apetite, aquela que minhas garras partiriam ao meio com um único gesto de tédio, juro que não, sequer teria percebido a garotinha não fosse o cheiro de urina impúbere açoitando meu faro, pois era você, era você que meu instinto caçava naquele instante pouco antes do fim, e por você meu coração de fera assassinada bramiu o último vagido de desespero quando vi a solidão impregnando de novo cada fio do seu invisível bigode de menino, vi cada uma das suas dores de menino agitar o casulo, a sua ânsia de se transformar em homem, vi sua metamorfose interrompida no instante em que o monstro, no instante em que EU retornava, vencida, à horrenda forma feminina, o biquíni obsceno, e assim você deixou claro o quão desejava a metade anterior de mim, você, ao contrário dos outros, queria a metade verdadeira, a mais profunda de mim.

Obrigada, já não fumo, você também não deveria, é pouco mais que um menino, infantil e tolo querer desta fumaça o fermento da sua metamorfose, está bem, só mais um, um último cigarro, não há de matar-me, talvez apenas aumentar a sede. Acenda para mim, mas cubra com as mãos a chama do fósforo, mantenha a escuridão, não quero que veja a perfeição esculpida neste obsceno corpo feminino à custa de tantos cremes, esfoliações e outros martírios.

Você fala pouco, quase nada, nada, e no entanto escuto em cada silêncio a pergunta que tanto cala: qual o segredo da mulher-gorila, a bela e indefesa vítima da maldição que se transforma em monstro neste trailer enferrujado pelo país afora? você por certo ouviu quando ele, o locutor, o homem que conjura o demônio em mim, você ouviu a ladainha de todas as noites, Esta bela jovem, esta jovem vítima da maldição da madrasta, da maldição da madrasta má! ele declama, e eu escuto, todas as noites, a mesma patética liturgia, e prendo, a custo, meu riso. Nunca houve madrastas, nem maldições, é velho e vagabundo o truque das mulheres que se transformam em gorila nesses espetáculos de beira de estrada à beira da extinção, o jogo de espelhos, a iluminação ardilosa, a sobreposição das duas imagens: a bela, a nudez realçada pelo biquíni obsceno, e a fera, vestida nua de pêlos, duas imagens que se fundem num artifício antigo até formarem a criatura híbrida, metade bela-metade fera, e, finalmente, a monstruosidade absoluta. Sim, eu era assim, no começo, igual a todas as outras, uma indefesa refém dos espelhos, até que uma noite, há tanto tempo, o espelho partido, cinco minutos faltando para a sessão, eu me lembro, eu quebrei, eu não me lembro, não sei qual metade de mim quebrou, o espelho, o espelho partido, justo naquela noite, os ingressos todos vendidos, não eram muitos, os ingressos, nunca foram, uma cidadezinha a um passo da inexistência igual a esta, o espelho partido, os estilhaços, e, ainda assim, eu fiz, era preciso. Sem jogo de espelhos, sem o ardil das luzes, sem o artifício das imagens sobrepostas, fiz, ainda assim, o número que os pagantes exigiam de mim.

Você agora transpira; calor; admito, é demasiado quente este trailer enferrujado onde perco o viço confinada por arbítrio próprio, mas não, não abriremos porta nem janelas deste ataúde de lata, há vaga-lumes lá fora, e se eles arrombam o escuro com a indiscrição de suas luzes voadoras, e se você enxerga a perfeição deste meu horrendo corpo feminino? só mais um copo, o último, a sede, você sabe: a fome. Talvez não seja o calor o único culpado pelos seus frios suores, mas lembre-se, quem o trouxe aqui foram seus próprios passos. Por que agora então os tremores, este rufar de tambor onde antes pulsava um coração de menino? medo? será isso o que farejo a borbulhar nos hormônios da sua infância terminal? medo? pressente alguma coisa? por isso insiste em esvoaçar para além do trailer estes olhos que julga invisíveis na escuridão mas que para meus sentidos de fera são dois vaga-lumes no cio? por que tanto sobressalto, agora que chegamos tão longe? pensa ter ouvido ruídos lá fora? passos, talvez? prefere que eu fale em sussurros? será ele? tem medo que ele chegue de repente, ele, o locutor, ele, o narrador do meu tormento cotidiano, o homem que conjura e esconjura de mim o demônio? não, ele não virá, não esta noite, não, nem qualquer outra noite: não existe tal homem, nunca existiu, ele não passa de frágil voz masculina aprisionada numa fita-cassete comprada a algum camelô de esquina, somos apenas eu e você.

Não há chicote, tampouco, lembre-se, você nunca viu aqui tal instrumento, apenas escutou o que na escuridão parecia o atrito sangrento de esferas de aço contra alguma tenra e hipotética carne de moça. Efeitos sonoros, tão somente. Minhas cicatrizes? as cicatrizes, sim, são de verdade, sempre deixo marcas – às vezes em mim mesma, quando não tenho companhia. Mas agora basta! Não bebamos mais, apague a fumaça do cigarro, pois sua sede é de outros venenos. Apalpe o fio das minhas unhas, sinta como crescem, e se enrijecem, latejantes, inundadas de sangue represado, mas não, não haverá dores atrozes, tenho para estas garras afiadas o anestésico da minha língua ferina, feche os olhos à escuridão, e veja, e sinta, a textura ondulante da minha pele, a penugem rala feminina que cresce e se encrespa e envolve seus dedos e sua boca, dê adeus à alma que escorre pela dilatação dos poros, sua alma, por inútil, já não lhe pertence, seja por inteiro o corpo que não cabe mais nas suas vestes de menino. Devore a fome que o devora, sacie a carnívora gruta, a carnívora gruta onde há pouco dormiam demônios – sua faminta legião de demônios, que você acordou para sempre.

Só mais um passo. Vem.

 

(*) José Rezende Jr. é escritor e jornalista, radicado em Brasilia, DF.
O conto acima integra o livro "A mulher-gorila e outros demônios", publicado em 2005, pela Editora 7Letras, no Rio de Janeiro. O autor disponibilizou para leitura na Internet no site www.joserezendejr.jor.br


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