-
-
-
-
-
---
-
         
    
 
________________________________________________________________________________________________
 


Clique aqui
e leia outro texto publicado no Tirando de Letra

CONTO
___________________________________________________


O morto dos olhos vivos

(*) Sérgio Napp

 

O que lhes conto me foi transmitido por pessoas que participaram da história. Como se sabe, neses casos, ao longo do tempo, fatos se adulteram, datas são trocadas, detalhes omitidos e alguns acontecimentos tornam-se inverossímeis. Entretanto, para aqueles cuja curiosidade se aguçar sobremaneira, sugiro: tomem a BR-101 em direção ao sul. No quilômetro 154 o aramado se interrompe e há uma árvore a que chamam de guardiã. Sigam pela estrada de terra, cruzem dois pontilhões, se os rios permitirem, e, depois de quarenta minutos, hão de chegar a uma vila, hoje sede municipal. Busquem pelo cemitério. Nele, ao fundo, no canto à direita, encontrarão o túmulo de quem falo, parcialmente encoberto de hera. Se acaso o tempo for o dos mortos, estará caiado de branco e sobre ele haverá toda a espécie de flores. Na lápide, a inscrição é simples: Pedro Alvarenga, o morto dos olhos vivos.

A chuva, iniciada numa manhã de sábado, era daquelas de nunca mais parar. O dia virou noite e emendou-se à própria por bons tempos, de forma que a ninguém foi dado conhecer. O Camaquã ultrapassou suas margens em vários metros e, em consequência, o Arroio do Ladrão encobriu pontes, invadindo campos e casas. Animais foram levados pelas águas turbulentas, vizinhos não puderam encontrar e, em algumas mesas, houve falta de alimento tal o medo das gentes em atravessar a rua até o armazém em vista dos ventos raivosos, dos raios e trovões que pareciam, com suas labaredas e estardalhaços, vitimar a todos. E pra completar, caiu pedra como nunca se vira.

Rezas, invocações e ladainhas diante de Madonas e Senhores Deus iluminados por velas, que tão logo se apagavam por força de lufadas de imediato tornavam a serem acesas, era o que mais se ouvia em todas as casas. Nunca, em tempo algum, ocorrera tanta violência por parte da natureza. Um verdadeiro dilúvio, em que alguns, sem qualquer esperança, tratavam de confessar seus pecados encomendando a alma.

Quando a chuva parou e puderam, finalmente, sair e olhar o entorno se deram conta da amplitude da tragédia. Casas destruídas, pessoas em abrigos improvisados, parentes e vizinhos sumidos, animais boiando pelos rios. Enfim, quando as águas voltassem ao nível normal, muito haveria de ser feito.

Foi quando a notícia se espalhou e recomeçaram os benzimentos. O Aldonso, a duras penas, conseguira chegar até a sede da fazenda e a encontrara de portas e janelas abertas, e vazia. Revirara todas as peças, abrira todos os armários, baús, alçapões e nada: o doutorzinho havia desaparecido.

Jovem de poucas falas, arredio, ensimesmado em pensares e leituras, o patrãozinho, como o chamavam, nunca se furtou, entretanto, em ouvi-los e ajudá-los quando justo. Para isso Aldonso o procurara.

Ele saiu pros lados do poço fundo pouco antes da chuva, afirmava o velho Quirino.

Teria se arriscado a tanto? Não era de se confiar no velho, um pouco poir problemas de visão, outro tanto porque, naquelas alturas, confundia pessoas e fatos.

O que eu vi, mesmo, contava o Arley, foi um bando de aves esquisitas, brancas e de bico preto, voando praquele lado, isto sim.

Do patrãozinho nada, nem sombra. Mas que ele tinha coragem para enfrentar sozinho aquele lugar do demo, isto era certo. mesmo em véspera de tempestade.

Pelo sim ou pelo não, resolveram se juntar dois ou três a cavalo e se botaram em direção ao poço fundo.

Barral desgraçado, vegetaçã miúda destruída pela chuva e pelas pedras, animais apodrecendo. E uma revoada de corvos daquelas!

Quinhentos metros antes deixaram os cavalos e arremeteram a pé para melhor examinar o terreno.

Bonito lugar aquele, sim senhor! A vegetação quase impedia a passagem; árvores de sei lá quantos metros de altura, circunferência que nem dois homens juntos conseguiam abraçar e, de repente, um claro forjado pelo tempo e recoberto de erva-capim. As árvores, ordenadas em colunas, como se estivessem em posição solene, anunciavam o rio com seus ímpetos e tocaias.

O rio subira tanto que não se viam as margens de um lado e de outro, nem o barranco pelo qual a ele se chegava e, principalmente, as enormes pedras que, em épocas normais, sobressaíam, majestosas, em seu meio.

Não lhes cabia, por ora, admirar as mutações da natureza e sim ater-se ao motivo que os trouxera àquele sítio. E logo a voz estridente do Erny se alteou: Aqui, gente, aqui!

Presos aos galhos, alguns restos de roupa, a manga de uma camisa, uma cueca cinza, um lenço. Nada que pudesse identificá-lo em definitivo. Mas quando se depararam com a bota, segura numa forquilha, veio a certeza.

Reverentemente destaparam as cabeças, colocando os chapéus contra o peito e voltaram-se para o rio.

Pobre diabo! Se os peixes não o comeram por completo, o que sobrou deve ter sido carregado pra muito longe!

Mais que depressa deram meia-volta. Precisavam contar as novidades.

Era tanta a desgraceira que ninguém atribuiu maior importância ao fato. Um morto a mais ou a menos não fazia diferença, mesmo tratando-se de quem se tratava. Preocupavam-se, isto sim, com os estragos e suas perdas.

Passados alguns dias o rio voltou ao normal e, embora difícil de admitir, a vida também.

Assim estavam quando, numa tarde, o filho da Benta entrou aos gritos em casa, Manhêe, manhêe, há um morto lá embaixo, um morto no rio!

Metade da vila desce e metade da vila se recusou a acreditar no que via.

Era ele, o patrãozinho!

E se recusava porque o que via, esta metade, era, de fato, inacreditável: o corpo estava inteiro! Inteirinho, sem um ferimento ou arranhão que fosse. Para do sobre as águas, próximo da margem, expondo sua nudez, tranquilo como se dormisse. Um detalhe impunha às pessoas o distanciamento do corpo; detalhe que deixava a todos, homens e mulheres, a s epersignarem e a se protegerem mutuamente, apertando-se uns contra os outros. Ordenavam aos filhos que saíssem daquele lugar enquanto suas bocas vociferavam imprecações, Ai, meu Deus!, Puta merda!, Minha Nossa Senhora!, Foda, meu!, mas ninguém ousava se afastar: os olhos do morto estavam abertos como se houvessem enxergado, antes da morte, algo de extraordinário e o buscassem, atentamente, muito ao longe.

Passado o susto, os mais valentes, acompanhados, agora sim, por todos numa verdadeira procissão, levaram-no para a casa paroquial ou o que sobrara dela. Era um temente a Deus e precisava ser encomendado.

Providenciaram o esquife, as roupas e o velório. Ainda que todas as tentativas tenham sido feitas, acabou enterrado com os olhos abertos.

A notícia se espalhou e centenas de pessoas, em romaria, acorreram, de carroça, a cavalo, bicicleta, trator ou a pé. E vinham flores e velas; e se faziam pedidos e se encordoavam orações. Fundamental, para cada um, se aproximar do morto e tocá-lo. Para tanto, empurravam-se, comprimiam-se. A sala tornou-se pequena, cada palmo era motivo de disputa, e muitos outros, aos magotes, eram anunciados. O odor das flores misturava-se ao das velas, dos cigarros, dos charutos e dos suores, tornando o ar quase irrespirável.

O padre, receoso por outra tragédia, resolveu oficiar, de imediato, a cerimônia. E se foram ao cemitério, com as flores, as velas, as orações, crianças vestidas de anjo, mulheres de negro e em prantos, homens acautelados.

Precavido, e antevendo o que haveria de ocorrer, o sacerdote resolveu enterrá-lo ao fundo, à direita, separado de todos. Assim se fez, apesar do desagrado do povo.

Esforço não faltou, mas o previsto aconteceu: o túmulo virou ponto de culto e peregrinação.

Gente de longe, de outros municípios, até de outros estados, vinha em busca de auxílio e carentes de saber: fora mesmo enterrado de olhos abertos?

Homens juravam tê-lo visto, em madrugadas, a galope, rumo ao Poço Fundo; às mulheres surgiu chorando, desconsolado, os olhos abertos. Só os fecharia, vivente, se encontrasse o que buscava. E o túmulo cobriu-se de oferendas, além das flores e velas que pareciam eternas, substituídas que eram a toda hora.

Algo inusitado?

Ah, sim. Mulheres ruins de engravidar, de repente, apareciam prenhes. Bicheira que não tinha cura, era só pedir. Pra acabar com a seca? Procissão noturna com cantos e luzes. Bicho que se perdia, plantação que não vingava, homem de má bebida, mulher de má índole, amores despareceirados, a tudo o morto providenciava.

E mais?

Ah, sim. Vieram mancos e coxos, despossuídos da sorte e de haveres, cegos e rengos, fazendeiros, industriais, políticos e militares, todos a invocarem o morto e solicitando préstimos.

Para desespero do padre as notícias se espalhavam feito rastilho em campo seco. Mais e mais gente se anunciava; os negócios prosperavam e os comerciantes, satisfeitos, faziam planos.

 

Mas o progresso é inevitável e dominante, filosofa o velho enrolando o cigarro de palha. As gerações se sucedem. A vida e o tempo são inexoráveis. Implantou-se a eletricidade e com ela, o rádio e o refrigerador. Depois, a televisão, o asfalto e o telefone. Criaram-se outros mitos.

Com o tempo a lenda foi sendo esquecida, mas o túmulo lá está, no velho cemitério, praticamente abandonado. Todos os anos, na data de sua morte, sem que a gente conheça os motivos, uma garça branca de bico preto pousa sobre o túmulo e ali permanece por vários e vários dias, imóvel, olhar fixo em direção ao poço fundo.

Todos a observam reverentes; dela ninguém se aproxima.

 

*) Sérgio Napp é engenheiro civil, escritor e compositor em Porto Alegre, RS. O conto acima foi extraído do livro"Estranhos Sentimentos", editado por WS Editor, em 2000.


______________________________________________________

Índice de Tirando de Letra

Voltar à página principal

 

 

 

 

 

 

APOIO CULTURAL:


 

 
 
Copyright ©2006 - 2006 - 2009 guata.com.br - Todos os direitos são reservados.