No assoalho do coletivo eu durmo. Os pés dos passageiros delimitam meu espaço. Com a freada e saída das pessoas do ônibus eu sinto o cheiro da terra e do povo. Meu companheiro já com as pernas arriadas debruça sobre mim. Suas canelas, há tempo enferrujadas parecem não ter a mesma vitalidade de 15 anos, quando ganhávamos as feiras ao norte de Poto Quato.
Da criatividade de um chipeiro da cidade vizinha, as pernas do meu companheiro de suspensão ganharam um reforço do amigo durex - famoso fita larga. Tão conhecido em algumas rotinas fronteiriças. O amigo fiteiro por sua vez, trouxe a companhia da poeira e do grude. O apego me dá calor e humanidade. Dessa união tenho o sentimento gostoso de transpirar. O mais engraçado é que acabamos morrendo sempre na boca do povo.
Dia desses fui ao Brasil, com meu empresário, o Ramon. Era quinta-feira, mês de março. Sentimos muito calor e graça. O jovem que há tempos não sorria, voltou a apresentar brilho nos olhos. Com um pouco de esforço conseguiu chamar atenção dos pedestres, motoristas, vigilantes e donas de casa. Estávamos em um amontoado de Chipas, por azar ou sorte, eu fui à última a morrer.
Entre muitos balançados do cesto, tive alguns minutos de calmaria. Aos poucos sentia que a hora da morte estava próxima. De leve, levantei o pano, olhei para os lados e vi várias pessoas. Eu era o centro da atenção, não pela beleza, mas pelo lugar que estacionamos. Ramon, apesar do esforço, continuava atrapalhado como na época que jogava no gol do time de Poto Quato - clube da quarta divisão do país vizinho.
Olhei uma, duas, três vezes. Tinha a certeza de que o cheiro que exalava vinha dos pés do senhor ao lado. As unhas encravadas de Juremar pareciam coçar minhas costas. Já a bota do cidadão do outro lado me olhava estranha. Eu continuava confiante em passear em uns lábios carnudos e sensuais. Derrepente, o senhor dos pés com esparadrapo, lá do banheiro do Terminal de Transporte Urbano se aproxima e diz para Ramon: “faz por 25 centavos?”.
Sinceramente por esta eu não esperava. Já estava bem experiente. Conhecia diversos banheiros, pisos, odores, cheiros, passageiros e bairros da cidade brasileira. Mas o que meu horizonte do cesto mais reconhecia eram pés, botinas, sapatos e saltos. Qualquer dia eu vou contar outras histórias desta vida de Chipa. Para viver, eu preciso apenas de bastante fogo, polvilho, óleo, queijo, ovo e sal.
(*) Wemerson Augusto é jornalista em Foz do Iguaçu, onde edita o site Megafone..