Crônica dedicada às mulheres de desejos colados e corações partidos
Atingi a iluminação ou seria a insurreição? Só sei que, em matéria de amor, saí do mapa das ilusões perdidas e peguei um rumo só meu: não sofro mais. Percebi há alguns anos que gastei todo meu estoque de lágrimas, ficaram os poemas, alguns piegas, outros cheios de inspiração. Mas depois de sacar band aids, mercúrio-cromo, anestesia, ansiolíticos, me enrolar em ataduras, chamar o SOS da desilusão, o CVV dos corações partidos, o SAMU dos desejos machucados, não sou mais a mesma. Aprendi a sair mais leve, linda e solta das relações que um dia me fizeram querer zarpar para a Antártica, naquele barco que a gente nunca sabe se volta.
De repente, descobri que não desejava mais enredos de bolero, mais que isso, não queria ser um tango, para viver de amores perdidos, rimas derretidas, confidências secretas. Ultrapassei a faixa dos amores vividos e dos amores bandidos, cruzei o semáforo no vermelho, como quem vira a página de um livro, louco para ver onde vai dar a história, com o desprendimento de não forçar o início nem segurar o fim.
Querendo ou não, deixar o romantismo excessivo é uma prerrogativa da maturidade, dá a sensação de abandonar o ventre da mãe. Ouçam isso meninas: de repente, o cordão umbilical se parte e a gente se sente livre e feliz para respirar sozinha. Quando crescemos - nem sei bem se é esta a palavra - há um certo alívio por ter nosso próprio abrigo à prova de balas, sem ser atingida por bombas, granizos, tempestades. Mulheres passam metade da vida procurando príncipes e engolindo sapos. Até conseguir sair de fininho num barco anfíbio.
Claro que a gente nunca pode desdenhar dos artifícios do amor, sua atração de lua, sua soberba de sol que nos espia nas frestas, enquanto juramos que ouvimos pássaros. Mas, que pássaros?
Um dia descobrimos que todo amor tem começo, meio e fim. Já será uma ousadia passear de mãos dadas por seus corredores, até aquela poltrona onde, enfim, descansamos de pernas pro ar, como quem faz a siesta, tomando um café e, ainda que não fume, dando baforadas num cigarro imaginário. Só para ver os círculos do passado subindo, se desprendendo, como um anjo que cumpriu sua missão, nos devolvendo a paz dos desencanados em vez dos “desenganados” do amor.
Façam as contas: quantos amores vocês tiveram na vida? Noves fora, amor pra valer se contam um ou dois, três no máximo. Quase sempre aqueles que duram mais tempo. No mais, é a luta da desilusão, o boxe do faz-de-conta, o nado sem borboleta, a olimpíada sem tocha, o voo sem asa, a invenção de cada dia, para que a vida tenha alguma graça. Não me arrependo dos amores inventados, os que criei como enredos de filmes, fazendo diálogos, concebendo personagens, minhas Sabrinas açucaradas, meus clones de Baudelaire, rumbas e tangos, como quem vive eternamente numa calle de Buenos Aires.
Mas quando dei por mim, tinha aderido ao surf, quase sem perceber peguei outra onda, mais feliz, como se, finalmente, me livrasse das ilusões perdidas, para tirar férias no Havaí, onde não há tristeza que resista a um bom mergulho no ...pacífico. Cruzei o mar, não quero mais me afogar em mágoas. Descobri que a iluminação é a insurreição. Como não?
(*) Célia Musilli é escritora e jornalista em Americana, SP. A crônica acima foi publicada originalmente no blog "Sensível Desafio", editado pela autora. ______________________________________________________ Índice de Tirando de Letra