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CONTO
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Número no circo

(*)
Carlo Lupezzin

Para Ela, que vi assim, girando solta
sobre si mesma na imensidão da beleza da arte.

 

Tudo sempre é verdade de um jeito ou de outro.

Um trapezista e sua partner entram no picadeiro. Embaixo da capa surrada, anos de repetição do voo escalado pelo mestre de cerimônia como o mortal duplo carpado mais perigoso da face da Terra.

A platéia aplaude e o barulho é o combustível que faltava para que ele se anime mais uma vez a subir e concretizar o salto. E é então que, como um estreante, sobe a escadinha estreita feita de cordas. Pendurados no mastro lateral da lona do Circo e Teatro Garcia, os degraus vão fazendo sumir as sapatilhas furadas do destemido senhor. Mãos gélidas, buraco no estômago e lá, bem lá em cima, ele oferece às mãos o conforto que percebe na aridez do talco do recepiente grudado ao lado da pequenina plataforma de lançamento. No meio da névoa branca, o trapezista enfrenta um poço de solidão. Entre ele e os olhos da platéia, a vontade de criar, embelezar o mundo com a fração de tempo do voo recomendado pelo dono do espetáculo. Aqui embaixo, a coragem do trapezista agora volta em forma de ansiedade, numa troca de emoção. Condicionados pelas palmas, corações arritmados como o do voador que se prepara para um perigo, daqui a pouco, lá em cima.

Todos na platéia torcem para que ele realize o número, e se arriscarão com ele, segurando o fôlego, espiando entre as pálpebras semi fechadas. E a emoção que toma forma do delírio daquele que acha que pode voar, agora se empresta para a respiração dos que olham e admiram lá em cima a sua silhueta. O trapezista é um ser alado que atrai para o seu corpo o próprio tempo.

No homem de capa, povoa a febre de criar asas por uma fração de segundos. Os tambores da bandinha rufa, dando prazo para aquela ousadia. Arregala os olhos, o artista, e a platéia voa pendurada em sua roupa surrada. E o que era coragem solitária, mostra-se bem mais do que dever de ofício. E o vulto lá em cima, soltando as mãos do trapézio para pegar no delírio da torcida aqui no chão, faz o tempo rodar num espaço diminuto onde roda seu corpo encolhido entre os joelhos presos pelos braços. Agora ele é seu próprio eixo e ao mesmo tempo o gerador de um imenso carrossel composto de dezenas de pessoas que, aflitas, mordem os lábios e suspiram.

Crianças e adultos nem piscam, para depois, relaxadas, sorrirem satisfeitas e aliviadas, com mais um dia de circo na cidade.

(*) Carlo Lupezzin gosta de circo e causos em Curitiba, Pr.

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