Aonde nasce o realismo mágico, fantástico, que domina a literatura e as artes produzidas nesta parte do mundo e que nos deu García Marques, Borges, Cortázar, Guimarães Rosa?
Meu compadre Helio Vera, escritor paraguaio que há pouco nos deixou, tinha a certeza de que a fonte desta literatura eram as crônicas dos primeiros navegantes que passaram pelo mundo até então desconhecido para os europeus e voltaram de suas viagens com relatos fantásticos que alimentaram e ainda alimentam a nossa imaginação.
Um deles é sobre o mítico Eldorado, que chegou a figurar nos mapas da época sem nunca ter sido encontrado, mudando de lugar e de forma segundo a fantasia de nossos cartógrafos.
Outro é o mistério das onze mil mulas carregadas de ouro que saíram de Cuzco para pagar o resgate de Atahualpa e até hoje não chegaram ao destino e por isso mesmo ainda há quem persiga a lenda e procure por este tesouro nas trilhas dos Andes.
Dizem que durante a colônia eram vendidas em Cartagena das Índias galinhas criadas em terras de aluvião que tinham nas moelas pedrinhas de ouro.
Este delírio que vem dos nossos primeiros navegantes ainda circula no imaginário popular, assim como a história de Alvar Nuñez Cabeza de Vaca que procurava a fonte da Eterna Juventude, ainda hoje o sonho de muitos homens e mulheres que não se contentam com as cirurgias e as novas fórmulas para ao menos parecerem mais jovens do que são.
Cabeza de Vaca passou por esta área do planeta onde o rio Iguaçu deságua no Paraná, em 1540. Ia para Assunção, onde assumiria como Adelantado de Espanha o vice-reinado do Prata.
Não vinha apenas atrás de poder. Sonhava descobrir no hemisfério sul o que não encontrara no norte, a fonte da eterna juventude. Mas tinha outro objetivo, o de descobrir o caminho para um império que produzia prata e ouro como lhe relatara um marinheiro que encontrou nas Canárias quando retornava de sua incrível expedição pela América do Norte.
Homem obstinado. Em busca da fonte da Eterna Juventude, Alvar Nuñez Cabeza de Vaca, antes de passar por aqui, errou durante oito anos por territórios que hoje fazem parte do sul dos Estados Unidos e do norte do México. Uma expedição fantástica, na qual não faltaram antropofagia e falsa medicina. Só cinco sobreviveram a um naufrágio dos 600 que a empreenderam.
Cabeza de Vaca acabou doente, destituído de poderes e devolvido à Espanha como traidor. Dele restaram as narrativas sobre suas aventuras no norte e nestas paragens meridionais que ainda orientam homens de fé e imaginação.
Mais sorte teve Antonio Pigafetta, navegante florentino que participou da expedição de Fernão de Magalhães na primeira viagem de circunavegação ao redor do mundo. Ele escreveu uma crônica extensa e detalhada desta viagem que parece uma aventura da imaginação.
Pigafetta não tinha outro recurso que o da comparação para descrever as maravilhas que ia conhecendo.. Contou que viu porcos com o umbigo nas costas, pássaros sem patas cujas fêmeas botavam seus ovos nas costas do macho, alcatrazes sem língua com bicos que pareciam colheres, viu um animal com cabeça e orelhas de mula, corpo de camelo, patas de cervo e relincho de cavalo.
Em seus relatos, Pigafetta contou que puseram um gigante nativo da Patagônia diante de um espelho e que ele perdeu a razão de pavor de sua própria imagem.
Vera agregava aos relatos dos navegantes a demência de alguns dos tiranetes produzidos neste lado do mundo. Um de seus personagens emblemáticos era o general Antonio Lopes de Santana, que foi ditador do México por três vezes. Santana ordenou funerais magníficos para a sua perna, que perdeu na chamada Guerra dos Pastéis.
O general Maximiliano Hernández Martínez, déspota teosófico de El Salvador, inventou um pêndulo para averiguar se os alimentos estavam envenenados, e cobriu o povo com papel roxo para combater uma epidemia de escarlatina.
E há essa legião constante de homens que ainda perfuram o solo paraguaio não para encontrar petróleo, mas atrás do tesouro que Solano Lopez teria enterrado em algum lugar entre Paso de La Pátria e Cerro Corá.
Loucura? Não. Estes relatos e lendas são parte fundamental da base de nossa formação cultural e contamina nossa percepção e nossas próprias narrativas, dizia Hélio Vera.
Muitas vezes de forma ilusória ou mentirosa, como o monumento ao general Francisco Morázan, que está na praça de Tegucigalpa. Na verdade é a estátua do marechal Ney, comprada em um depósito de esculturas usadas.
(*) Fábio Campana é jornalista e escritor em Curitiba, Pr.